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Bruma da Maré

       Falta vida num corpo que finca os pés no chão e não parece sair do lugar. Assim, bem direto: preciso me dizer mais uma vez que o que eu quero não mora em endereço fixo, nem é feliz dentro de uma rotina. Um sonho que se esconde no medo, na inexperiência daquilo que socializa, no receio desses homens vulgares e tento esquecer. Me pego tentando me convencer que mereço uma rotina, o cansaço de um trabalho entediante que me faça ter dinheiro suficiente para me preencher de coisas que não preenchem. Celulares caros, objetos inúteis, tênis de marca. Tudo que eu preciso, nem cabe no quarto que durmo, porque nada do que eu tenho me faz feliz.      Dez anos atrás, eu disse que me escondia num quarto e observava de dentro da janela a vida tomando seu rumo. Os dias continuam passando como um filme e eu ainda assisto por essa janela. Espera, quem é ela? Que de uma hora para outra, permitiu que sua vida fosse protagonizada por outro alguém e se tornou figuran...

vinte e um e muita vida

       Um dia você vai notar que tudo mudou desde que fui embora. Que esse sentimento que guarda, é por alguém não existe mais e que a dor te obrigou a mudar mais uma vez. Vai notar que nenhum corpo é como o meu, que nenhuma boca beija como a minha, que nenhum olhar será igual o meu. Quando acordar ao lado de mais uma pessoa, se dará conta que o casual, é a casualidade que encontrou para esquecer a última vez que estive deitada aí e olhei no fundo dos teus olhos dizendo que te amava. É claro que por um tempo, você não acreditou no amor e um dia desacreditou até do meu, porque parti. Dessa vez eu peguei o ônibus primeiro. São dores que causei sem intenção, mas assumo a responsabilidade e em algum momento, tudo que vivemos deixará de fazer sentido e você irá se acostumar com essas bocas que beijam rápido demais e essas mãos que são apressadas, quase se esquecendo que te beijei sob a luz da lua e te toquei devagarinho. Quando se lembrar e não machucar mais, estará curad...
       Às vezes entro num completo estado de dormência, noto tudo mas não sinto nada. Foi a forma que encontrei de permanecer indiferente diante situações que não me cabem. Tento tanto não fazer questão, que acabo não fazendo mesmo. Dou sorrisos amarelos, digo meia dúzia de palavras e aguardo até o fim da refeição. Só não digo que já desistiram de mim, porque na verdade, nunca se importaram de fato. Nunca houve um momento em que realmente fizessem questão da minha presença. É por isso que eu fui neutralizando as minhas expectativas, matando minhas tentativas de me inserir num lugar que não me cabe e que nunca se esforçou para me caber. Abraços frios, agora me cumprimentam com beijos no rosto, somente quando é conveniente. Isso não me satisfaz. Queria mais, eu queria de verdade. Mas já que não tenho, assim me mantenho: apática. Sei que ninguém está aqui para me entender e não quero bajulação, mas é estranho conviver tanto tempo com pessoas que não fazem a mínima quest...

Oi, tia Gilda

    No dia que você partiu, eu achei uma fotografia nossa e nela, corríamos naquela prainha. Você estava linda, naquela água azul, como gostava e sorrindo como se estivesse se despedindo de mim. Uma calmaria. Do que mais sinto saudade é da sua risada, que de vez em quando me vem à cabeça e meus olhos se enchem de lágrimas. Ainda choro, tia Gilda, é inevitável e quem não entende é por que não ama o suficiente, pra saber que existe amor além da vida. O luto é como as águas dos rios que banham a nossa cidade, pensei: ele vem e vai, vem e vai. E nessas vindas, me pega desprevenida, surge tímido como uma memória que depois se transforma em muitas saudades. Às vezes eu como bolo e penso em você, dou risada, porque você sempre fazia bolo quando eu chegava na sua casa e eu nunca consegui te dizer que não gosto muito. Não queria te decepcionar e nunca quis, se te fiz algo peço perdão. Mas sei que tudo que ficou aqui foram boas lembranças, então vou te dizer as minhas preferidas: q...

Muito estranho

Prévia sujeita à alteração: O calor que precede faz meu corpo tremer Eu sei o que sinto mas tento esconder Tenho saudade desses suores misturados E dos momentos que mantive emoldurados Como salas vazias que nos esperavam Também as aulas perdidas se justificavam Havia uma pressa, uma ânsia em viver Mais do que tudo, em apenas te ver E sorrateiramente ir ocupando um espaço Que aos poucos foi ficando naquele abraço Dele se estendiam mais mil beijos velozes Até serem interrompidos pelas nossas vozes Misturando tudo dentro de nós como Dalto diz Alcançava notas tão altas e aquilo me fazia feliz Por isso sei que às vezes meu corpo fala comigo Quando o arrepio sobe até a nuca e causa perigo Pensamentos vêm a mente se entrelaçando Aguçados pelo toque que está se distanciando Volúpias que se enrijecem com o passar dos anos Então meu caro, pra que fazer tantos planos? Se o calor que não se extingue agora entristece Sonhamos com coisas distintas quando anoitece E pairo sobre a lua pensando em outr...

Ilhense

      Eu sempre gostei do meu nome. Quando criança, achava um máximo o fato de nunca ter ninguém com o mesmo nome na lista de chamada ou na vizinhança. Apesar disso, a maior parte do tempo, pensava que o seu significado não era pra mim. Tenho uma mania terrível de me lembrar mais dos momentos tristes do que dos felizes, talvez essa depressão que perdurou por anos, me fez esquecer quem eu realmente sou e agora estou aqui para resgatar: eu fui uma criança de cidade pacata e pequena. Dessas cidades que todo mundo se conhece e o nosso lazer era ir à prainha. Nunca tivemos carro em casa, sempre fui à escola de bicicleta e andava por tudo sozinha. Fui feliz e era espontânea, gostava de gravar vídeos e dançar. Sempre morei em casas de viela, que consistiam em serem grudadas nas outras, sem corredores ou quintal grande. Mas eu era feliz, em algum momento eu fui e muito. Coisas aconteceram, preciso admitir. Mas não tem só esse lado e talvez a timidez, misturada com uma imensa depr...

Tem um coração partido ouvindo músicas da Sade

    É noite, faz frio e garoa lá fora. Do vitrô no alto da cozinha, se pode ver a rua molhada. É que eu ainda moro naquela casinha dobrando a esquina, que a porta só dá um metro das grades do portão e no espaço só cabe uma cadeira de área. Aqui dentro tem essa luz amarelinha que conforta e tinge os azulejos brancos e ultrapassados, no fogão tem a minha leiteira vermelha que ferve um chá para mim. A fumaça sobe até o vitrô e deixa o vidro embaçado, se misturando com o pouco do vento gelado que entra sem pedir licença. Encosto no balcão enquanto espero, belisco uma bolacha. Agora com o chá na xícara, vou para o meu quarto. Aquele mesmo de sempre: uma cama de madeira bem pequena e uma penteadeira antiga e toda delicada. Procuro algo para ler enquanto me aqueço. A chuva dança na minha janela enorme de madeira, o barulho é agradável mas provavelmente não conseguirei dormir.       E não consigo. Eu levanto e vou até a sala, mas a televisão não pega. Deitada em me...