Tem um coração partido ouvindo músicas da Sade


    É noite, faz frio e garoa lá fora. Do vitrô no alto da cozinha, se pode ver a rua molhada. É que eu ainda moro naquela casinha dobrando a esquina, que a porta só dá um metro das grades do portão e no espaço só cabe uma cadeira de área. Aqui dentro tem essa luz amarelinha que conforta e tinge os azulejos brancos e ultrapassados, no fogão tem a minha leiteira vermelha que ferve um chá para mim. A fumaça sobe até o vitrô e deixa o vidro embaçado, se misturando com o pouco do vento gelado que entra sem pedir licença. Encosto no balcão enquanto espero, belisco uma bolacha. Agora com o chá na xícara, vou para o meu quarto. Aquele mesmo de sempre: uma cama de madeira bem pequena e uma penteadeira antiga e toda delicada. Procuro algo para ler enquanto me aqueço. A chuva dança na minha janela enorme de madeira, o barulho é agradável mas provavelmente não conseguirei dormir. 

    E não consigo. Eu levanto e vou até a sala, mas a televisão não pega. Deitada em meu sofá verde e cheio de rasgos, eu afundo a cabeça numa almofada qualquer, assistindo o único canal disponível sem aqueles chiados. É um filme sobre um motorista de táxi que vaga pela noite. Não me interessa. Olho no relógio e ainda são duas horas da manhã. A noite é longa e eu me dou por vencida. Vou até a cozinha e faço palavras cruzadas. Não me restam alternativas, mas a minha mente não se aquieta. Inevitavelmente eu não paro de pensar em você. Queria pausar a gente nos momentos que nossos suores se misturam e estou em cima de você e acelerar aqueles nossos desentendimentos pela convivência. Como não consigo, fico aqui pensando que talvez seja por isso que todo mundo sempre vai embora. Crio uma dependência que não me faz bem e me apego em instantes que se foram e não vão voltar. 

    Sou saudosista com meu próprio passado, é um fato. Por exemplo, por agora, me sinto perdida e acho tudo um saco, mas daqui uns cinco anos olharei para esse exato minuto e sentirei uma vontade imensa de voltar pra cá. Te quero agora com aquele gosto de uns trinta e seis meses atrás, em que ríamos do genuíno. Éramos simples e só nos contentávamos com nós. São cinco horas da manhã e eu não paro de pensar em você. Talvez eu não saiba ser feliz, mas sinto que era contigo. Também preciso dormir e colocar o sono em dia, já que o vizinho do lado acabou de sair para trabalhar e essa insônia me consome. Como sempre, como você sempre diz. Sei lá, só volta para mim de verdade e me diz tudo que sente. Tira do peito tudo que você gosta em mim e põe em palavras. Daí me sinto valorizada. Esse silêncio me consome e eu nem me sinto presente sem a sua presença. É estranho amar tanto alguém assim, mas eu amo e não sei o que fazer.


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