Oi, tia Gilda


    No dia que você partiu, eu achei uma fotografia nossa e nela, corríamos naquela prainha. Você estava linda, naquela água azul, como gostava e sorrindo como se estivesse se despedindo de mim. Uma calmaria. Do que mais sinto saudade é da sua risada, que de vez em quando me vem à cabeça e meus olhos se enchem de lágrimas. Ainda choro, tia Gilda, é inevitável e quem não entende é por que não ama o suficiente, pra saber que existe amor além da vida. O luto é como as águas dos rios que banham a nossa cidade, pensei: ele vem e vai, vem e vai. E nessas vindas, me pega desprevenida, surge tímido como uma memória que depois se transforma em muitas saudades. Às vezes eu como bolo e penso em você, dou risada, porque você sempre fazia bolo quando eu chegava na sua casa e eu nunca consegui te dizer que não gosto muito. Não queria te decepcionar e nunca quis, se te fiz algo peço perdão. Mas sei que tudo que ficou aqui foram boas lembranças, então vou te dizer as minhas preferidas: quando fazíamos bolinhos de chuva em domingos chuvosos, quando passava em casa com a sua bicicleta azul para me levar à igreja, quando deitávamos depois do almoço para assistirmos televisão até você cochilar e dos anos novos em família. Você sempre foi festa, sempre foi alegria e é dessa tia que me lembro e quero continuar me lembrando. Sou grata, mesmo após a sua partida sem um adeus, me visitou inúmeras vezes em sonhos e agora descansou, mas deu até tempo de eu te mostrar a minha tatuagem, apesar de saber que você não gostava que eu fizesse. Sou teimosa e às vezes brava, como sempre me disse e sinto muito a sua falta! Sempre tento deixar claro, tia Gilda, que depois que você fechou os seus olhos, eu perdi completamente a sensação de que alguém faria o que você faria por mim, se um dia fosse preciso. Te prometi virar gente grande e cuidar de você, não deu tempo. Mas fomos felizes. Você é a minha tia preferida e sempre será. Ainda continuo te escrevendo cartinhas, acho difícil parar e espero que você ainda goste. Difícil falar de você no passado, porque dentro de mim você ainda vive e então, o que me resta, é lembrar da gente com carinho e manter a sua memória viva para todos que me falam sobre você. A essa altura, um "eu te amo" ficou pequeno demais. O que eu sinto não se explica, mas se encaixava no seu abraço e hoje me contenta com os detalhes que deixou para mim. 

Mais um dia 20 de novembro, mas não me lamento. Hoje estou aqui para celebrar a vida que teve e tudo que você foi para mim. Espero que sinta orgulho de mim e cuide da gente daí de cima. Muito obrigada, tia Gilda!

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