Bruma da Maré

     Falta vida num corpo que finca os pés no chão e não parece sair do lugar. Assim, bem direto: preciso me dizer mais uma vez que o que eu quero não mora em endereço fixo, nem é feliz dentro de uma rotina. Um sonho que se esconde no medo, na inexperiência daquilo que socializa, no receio desses homens vulgares e tento esquecer. Me pego tentando me convencer que mereço uma rotina, o cansaço de um trabalho entediante que me faça ter dinheiro suficiente para me preencher de coisas que não preenchem. Celulares caros, objetos inúteis, tênis de marca. Tudo que eu preciso, nem cabe no quarto que durmo, porque nada do que eu tenho me faz feliz.

    Dez anos atrás, eu disse que me escondia num quarto e observava de dentro da janela a vida tomando seu rumo. Os dias continuam passando como um filme e eu ainda assisto por essa janela. Espera, quem é ela? Que de uma hora para outra, permitiu que sua vida fosse protagonizada por outro alguém e se tornou figurante, daquele que passa no fundo da tela por cinco segundos numa película de três horas. Quem é essa menina que não consegue mais sentir o gosto das coisas e ver a intensidade das cores?

    Anos se passaram, e me arrastaram para lugares que não tenho certeza se gostaria de estar. Cumpri obrigações, fiz o que me era esperado e agora, não sei para onde ir. Falta vida, falta tudo. Um corpo saudável que não se gripa com facilidade, amigos que fazem questão da sua presença. Já sei! Falta um abraço apertado e alguém que queira me ver, queira ouvir a minha voz. São detalhes que preenchem por um instante esse peito vazio, que no fundo, tem esse sonho ignorado que é viver nesse mundo enorme. 

    Sinto falta de conhecer uma cidade nova, de sentir o clima enquanto olho a paisagem pelo ônibus. De caminhar pelas ruas observando a arquitetura das casas, de olhar nos olhos de pessoas que nunca vi. Preciso ter pelo o que viver, porque senão, não consigo nem mesmo escrever e não aguento mais escrever sobre as mesmas coisas. Eu digo que o que quero ainda não tem nome, mas na verdade tem sim: eu quero vida. É isso que tenho pedido a Deus todas as noites antes de dormir.


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