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Flores de plástico

 *Contém palavras e palavrões        Caminhando por essas ruas na noite crua, com minhas botas um pouco desgastadas exploro bares e lugares que eu nunca fui. Sozinha eu abro um botão da camisa enquanto prendo o cigarro com os meus dentes, eu ajusto a saia e confiro a hora em meu celular. Agora é mais tarde do que deveria ou cedo demais para os corpos que não se calam. Eu ando como quem procura um lar, antes de uma casa e nas calçadas me equilibro no meio-fio enquanto o semáforo não fecha. Esses homens patéticos com seus ternos, voltando de seus trabalhos nojentos em seus carros chiques são mesmo um tédio e a cada buzina mostro o dedo médio incansavelmente. Mas eu não ligo, eu quero chegar no meu destino. De manhã sempre volto pra casa com a maquiagem borrada e completamente cansada, passos curtos de pernas que dançaram a madrugada inteira e não querem mais nada. Neste instante encaro os mesmos homens patéticos agindo totalmente ao contrário. Com suas esposas e f...

As cores

 As cores refletem aqui dentro. Por um momento penso que são as mais brilhantes que já vi, mas é que quando se passa muito tempo sem vê-las, é como se você quisesse contemplar cada pedaço do mundo. Por toda essa vida fazendo esforços para poder observar, para conseguir suspirar em ver paisagens e mesmo com óculos de grau ainda tive dificuldade. Por ter aqueles dias que a gente acorda numa fadiga e nem ousa abrir a cortina. Mas as cores ainda assim brilham e quando descobri fiz festa por uma semana inteira, gastando minha visão com todos os tons que o mundo me oferecia. Agora com a mochila nas costas eu sonho acordada, sempre pensando que só me falta alguns ajustes e depois quase nada, depois disso espero que a vida aconteça, ainda que eu saiba que ela já está acontecendo. Meus amigos passam e dizem oi de vez em quando, vivendo em suas rotinas e eu os observando, pois aqui dentro a hora quase não passa, também não sei se passa eu não vejo, mas o relógio virou meu inimigo. Eu corro c...

O banco sob a mesa

       Houve uma festa cheia de gente, barulho e conversa. No ar, os perfumes mais variados se misturavam e visualmente todos estavam bem vestidos, porém todos eram iguais. A mim, não restava dúvida de que de alguma forma, em algum momento, aquela criancinha tímida havia crescido e tentava agora se encaixar em festas, eu particularmente mandava bem. Danço como nunca, porque danço com a alma, liberto as energias e nunca fico bêbada. No escuro do salão, que só se ilumina com luzes que piscam, minhas amigas sempre elogiam e eu sempre estou sorridente. Ainda que quando chego em casa, dificilmente fico contente. Aqui, tenho tempo pra pensar e percebo que já não me encontro. Agora sem maquiagem, na frente do espelho depois de um banho intenso, não sou capaz de saber quem eu sou. Não me enxergo de jeito nenhum, mesmo com os meus óculos. Nos banheiros dessas festas também não me vejo, mas disfarço e ninguém me conhece. Aqui só me sobra esse amontoado de sentimentos que escon...

Como Felscherinow

      O frio não se cala e ando sempre mantendo as mãos no bolso. Comigo há um silêncio que se quebra com o barulho das minhas botas, elas vão marcando superfícies secas onde esta chuva não alcança. Meia hora atrás, estava eu me arrumando num banheiro minúsculo, revirando o meu guarda-roupa bagunçado e prometendo a mim mesma, enquanto delineava os olhos, que essa seria a última vez. No meu inconsciente sei que não, mas me iludo. Assim como me iludo com a forma como você me trata, me fazendo crer que é diferente desses outros homens. Eles sim me parecem sujos e estão aqui procurando algo que não deveria ser comprado. Agora o toc toc das botas de couro sintético ecoam pelo quarteirão e daqui já posso ver. Mais uns dez passos e os carros já conseguem parar ao meu lado, daí em diante é o mesmo blá-blá-blá cansativo de sempre e por enquanto vou negar, porque desejo te ver e você disse que viria. A ansiedade que engole o peito e faz as vozes das minhas amigas repetirem na minha...

#4B0082

  Você me diz, me diz e me diz coisas das quais eu já sei ou aquelas que machucam no fundo do peito. Tudo bem, eu aceito, porque te digo essas coisas também. Mas cá pra nós, você enxerga o fim? A cada briga que traz as lágrimas e o sofrimento por não saber como lidar e eu me pego pensando em como é bom te ter por momentos, mas que a nossa convivência sai faíscas e que elas vão queimando e queimando, a ponto de que me encontro com os olhos cheios d´água. Que sensação é essa? Que desnorteia até o maior dos focos e paralisa os movimentos espontâneos, na medida em que também corro e não chego a lugar algum, ou melhor, paro exatamente onde já estou. Você sente também? Como se tudo fosse vazio e o eco machuca, mas as palavras ditas de forma grosseira rasgam, destroem, daí não sei o que é pior, o silêncio ou esses diálogos que beiram a desentendimentos e falta de compreensão. Não sei o que o futuro nos reserva, mas daqui vejo muito amor e ao mesmo tempo tristeza. Ultimamente eu me sinto s...

nunca existiu ph...

 Um dia nossos destinos se cruzaram e quando eu te vi, bem soube na hora. Ainda que não imaginasse metade do que viveríamos, o meu coração tem um jeito estranho de me avisar quando vou me apaixonar. Você apareceu ali para me salvar e foi isso que eu pensei até um tempo atrás, visto que a minha vida era completamente bagunçada e seu corpo esquelético que transitava por aquela sala, me chamou a atenção. E aí não teve jeito, um dia você indagou sobre uma banda de metal que estava ouvindo e eu perguntei se gostava. Naquele momento, as engrenagens do destino já estavam alinhadas e eu acreditei no nosso amor, tanto que isso explica porque cegamente fui até a sua casa diversas vezes durante tardes inteiras. A intensidade não se explicava, mas eu achava que você sentia igual a mim, porque eu sou completamente apaixonada e gosto de viver o amor. Das madrugadas que passamos acordados, como aquela em que você me acompanhou até em casa, depois de uma conversa enorme sentados numa arena de rode...

Amor à luz da lâmpada

Dos segredos expostos ao silêncio E a penumbra que nunca se cura Quando penso que vivo o momento Na mesma medida em que sinto a loucura E as mãos frias que se tocam Mas os lábios chegam primeiro Nossos olhos quase se focam Nos perdemos em demasias e devaneios Que saem de nossas mentes E dançam por todo o cômodo Vai vagando e você bem sente Que por dentro faz um estrondo Desses que perturbam os ouvidos E arregalam os olhos perplexos Então surgem os beijos desprevenidos Que chegam como reflexos Perdidos em horas que não passam E o tempo arrasta essa angústia constante Dos limites que sempre ultrapassam E paralisam os nossos instantes De dois corações apaixonados Fadados à dor de não poder ter Sou teu amante e também teu amado Mas muito menos do que queria ser Você me diz coisas que não esquecerei E tudo foi muito bem guardado Se exige fidelidade, a ti darei Esse amor é o que me mantém acordado Na busca por finalmente parar de sofrer Parece que vivo esperando sentado Coragem basta somente...