O banco sob a mesa
Houve uma festa cheia de gente, barulho e conversa. No ar, os perfumes mais variados se misturavam e visualmente todos estavam bem vestidos, porém todos eram iguais. A mim, não restava dúvida de que de alguma forma, em algum momento, aquela criancinha tímida havia crescido e tentava agora se encaixar em festas, eu particularmente mandava bem. Danço como nunca, porque danço com a alma, liberto as energias e nunca fico bêbada. No escuro do salão, que só se ilumina com luzes que piscam, minhas amigas sempre elogiam e eu sempre estou sorridente. Ainda que quando chego em casa, dificilmente fico contente. Aqui, tenho tempo pra pensar e percebo que já não me encontro. Agora sem maquiagem, na frente do espelho depois de um banho intenso, não sou capaz de saber quem eu sou. Não me enxergo de jeito nenhum, mesmo com os meus óculos. Nos banheiros dessas festas também não me vejo, mas disfarço e ninguém me conhece. Aqui só me sobra esse amontoado de sentimentos que escondo como as roupas em meu armário, mas uma hora eles caem em cima de mim. E suspiro, eu choro feio. Tenho vontade de gritar. Não sei o que quero pro futuro e não me vejo aqui, nem lá. Eles falam sobre trabalhar e essas coisas, mas meu coração pulsa quando penso que eu sempre fui desajustada. Sempre quis conhecer o mundo com uma mochila nas costas e mais nada. Poder contar as histórias que ouvi, fotografar pra lembrar, mas acima de tudo viver para escrever. Mas não posso, a mim parece que esse direito não foi dado. Eu bem seria um desagrado, se contrariasse os meus pais e afirmasse o que no fundo todo mundo sabe, não sou feliz e disfarço. O tempo todo disfarçando e este peito aqui pulsando, me volto em vícios horríveis e anseio por me conhecer. Disse a minha psicóloga que estou tentando, que estou tratando as feridas do passado, mas quando ela me pergunta do futuro simplesmente não sei o que dizer. Mas olha, antes que você cogite em pensar, eu sei das minhas vantagens e são elas que me fazem pensar que sou uma ingrata, porque todas essas coisas ainda não me fazem sorrir. Continuo não sabendo o que quero e temo que não saiba, no momento eu queria sair correndo e distante, talvez eu ache o que tanto procuro. Ainda é confuso pra mim. Minha existência é toda confusa, difícil de lidar com essa depressão que me assola por anos, mas eu sinto que desde criança, sou diferente. Nunca me encaixo e sempre fui quieta, porém muito observadora. Com dez anos catalogava pessoas, por causa de suas personalidades e trejeitos, mantenho esse hábito até hoje, mas não sou arrogante ou arroto inteligência. Tudo que aprendi, foi na base da dor. Tive grandes acontecimentos emocionais que me trouxeram até aqui, são eles que eu ainda enfrento e agora, já adulta, tento superá-los. Não quero ser repetitiva, mas a minha mãe sempre me disse que na vida, quando crescemos, paramos de falar sobre o que nos machuca e eu não quero ser assim. Eu ainda preciso falar sim, não por não ter superado, mas porque sinto que é necessário dizermos o que e onde dói. Tudo me é tão confuso, ainda não me reconheço e gosto de ver como as pessoas acham que me conhecem, quando na verdade só sabem o básico sobre mim. Sabem o que permito que conheçam: alguém que vive fazendo piadas, tem a voz fina e fala sobre feminismo. Mas eu sou muito mais do que isso, é que ao longo da minha vida, ouvi mais do que fui ouvida e ninguém nunca se propôs a me perguntar sobre o que penso das coisas. Eu tenho muito a falar e ao mesmo tempo, muito a me conhecer. Necessito de uma viagem, um tempo que me possibilite descobertas. Essas convenções sociais já me dão um tédio e eu odeio pensar que pra obter sucesso e o orgulho dos meus, preciso seguir o padrão de todo mundo e morrer fazendo a mesma coisa o resto da minha vida. Não sei se quero isso, sei que vou morrer pobre. Nem mesmo sonho com realidades utópicas, pois desde que me entendo por gente, eu sei da minha realidade, o que me impediu de ser ambiciosa. Não sei se tenho sonhos e isso é ruim. De qualquer forma, esse é o mais sincero dos meus desabafos e pode ser que daqui um tempo, eu já tenha mudado de ideia. Quem sabe?
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