Como Felscherinow
O frio não se cala e ando sempre mantendo as mãos no bolso. Comigo há um silêncio que se quebra com o barulho das minhas botas, elas vão marcando superfícies secas onde esta chuva não alcança. Meia hora atrás, estava eu me arrumando num banheiro minúsculo, revirando o meu guarda-roupa bagunçado e prometendo a mim mesma, enquanto delineava os olhos, que essa seria a última vez. No meu inconsciente sei que não, mas me iludo. Assim como me iludo com a forma como você me trata, me fazendo crer que é diferente desses outros homens. Eles sim me parecem sujos e estão aqui procurando algo que não deveria ser comprado. Agora o toc toc das botas de couro sintético ecoam pelo quarteirão e daqui já posso ver. Mais uns dez passos e os carros já conseguem parar ao meu lado, daí em diante é o mesmo blá-blá-blá cansativo de sempre e por enquanto vou negar, porque desejo te ver e você disse que viria. A ansiedade que engole o peito e faz as vozes das minhas amigas repetirem na minha cabeça, me dizendo que eu fui uma trouxa e que qualquer um diz coisas bonitas depois de chegar lá. Mas você é diferente, sei lá, eu sinto e enquanto penso isso, dez minutos já se passaram. Compro uma água, sei não, estou de bode. Já posso sentir os tremores chegando em passos lentos e estes homens nojentos que não se hesitam. Seguirei os conselhos de minhas amigas e crente disso, vejo você virar a esquina mas mantenho a pose. Você passa por mim e eu nem dou bola, por dentro corroendo e você me ignora como se esperasse por outro alguém. Isso eu não suporto e me dou por vencida. Queria ficar mais, mas já posso sentir o frio na barriga e vou em buscar de outro rapaz. Uma hora depois e minha cabeça ainda está tonta, eu nem sei o que rolou mas você me conta, enquanto o vidro do carro vai desembaçando. Digo “quero sair dessa vida” e você repete num tom baixo “também quero que saia”. Mas o que me sugere? Que saco! Estou de bode e insuportavelmente insisto pela grana. Você com seus conselhos, abre a sua carteira gorda e me dá o que preciso. Parto fechando o meu casaco enorme e o toc toc das botas não param um só segundo. Eu preciso muito do... bagulho e estou prestes a pirar. Mas consigo e nesse banheiro nojento, reviro os meus olhos. Agora mais calma, sigo sozinha. Os homens ao meu redor, mas você já sumiu da esquina. Suspiro tranquila, não deixo a situação me afetar. Mais tarde posso rir de mim mesma, me olhando no espelho e lembrando que você disse que comigo iria se casar.
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