Flores de plástico
*Contém palavras e palavrões
Caminhando por essas ruas na noite crua, com minhas botas um pouco desgastadas exploro bares e lugares que eu nunca fui. Sozinha eu abro um botão da camisa enquanto prendo o cigarro com os meus dentes, eu ajusto a saia e confiro a hora em meu celular. Agora é mais tarde do que deveria ou cedo demais para os corpos que não se calam. Eu ando como quem procura um lar, antes de uma casa e nas calçadas me equilibro no meio-fio enquanto o semáforo não fecha. Esses homens patéticos com seus ternos, voltando de seus trabalhos nojentos em seus carros chiques são mesmo um tédio e a cada buzina mostro o dedo médio incansavelmente. Mas eu não ligo, eu quero chegar no meu destino. De manhã sempre volto pra casa com a maquiagem borrada e completamente cansada, passos curtos de pernas que dançaram a madrugada inteira e não querem mais nada. Neste instante encaro os mesmos homens patéticos agindo totalmente ao contrário. Com suas esposas e filhos no banco traseiro, me ignoram ou olham com olhares atravessados. Dou risada e não me hesito em acender mais um cigarro. Esses dias um moço me parou oferecendo uma flor mas não era verdadeira, foi frustrante porque eu realmente queria comprá-la, então ele me falou que flores de plástico duram mais e se pareciam comigo, naquele momento veio uma náusea fodida. As flores de plástico não morrem, mas também nunca tiveram vida e talvez ele soubesse disso. Talvez todos ao meu redor pensassem exatamente isso de mim. Me subiu um frio na barriga e tive vontade de correr, desde ai tenho tido pensamentos claros do que tenho feito comigo e com os outros. Há quanto tempo não vejo a minha mãe e dou um beijo em seu rosto? Há quanto tempo tento me esconder nessa armadura que criei para salvar a mim mesma? Com poucos sorrisos e muita nicotina de sobremesa. Preciso parar! Preciso encarar que a noite oculta o que o dia deixa em evidência e parar de tentar fugir do que eu sou e dos traumas que carrego, mas a premissa do perigo que pode haver na minha vida é uma delícia. Como um vício nauseoso que me afasta de tudo aquilo que acredito e essa personalidade cabotina que insisto em manter, me fazendo gritar em banheiros públicos por frustração ou por me achar feia, displicente e autodestrutiva. Caminho por essas calçadas sempre e nunca vi alguém me sorrir com sinceridade, o que me leva a crer que eu realmente não sou de verdade. Será que existo? Ou nunca vou morrer, mas também não vivo?
Comentários
Postar um comentário