Eu sou a pobreza, vocês recusam a me enxergar
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará", Salmos 23 em um calendário velho, pendurado na geladeira onde reside a simplicidade. Nada me faltará, a fé não há de faltar que no mês que vem talvez tenha carne boa pra jantar, tenha eletricidade depois das oito da noite, talvez a televisão singela e pequena aquete os meninos após um dia inteiro correndo pelo mato com os pés cheios de barros e o sorriso no rosto. Quem sou eu? Ora essa, eu sou o que recusam a ver mas está presente em todo e qualquer lugar, eu sou a humildade, a esperança, a revolta, a dificuldade, eu sou a pobreza. Tamanha eu sou, mas a sociedade insiste em tratar como escória, eles jogam o meu povo em lugares afastados do centro, que é pra madame não me ver enquanto compra mais um sapato pra sua coleção de primavera-verão, que é pros meus meninos descalços não sentirem inveja do material escolar equipado das crianças nobres.