Eu sou a pobreza, vocês recusam a me enxergar
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará", Salmos 23 em um calendário velho, pendurado na geladeira onde reside a simplicidade. Nada me faltará, a fé não há de faltar que no mês que vem talvez tenha carne boa pra jantar, tenha eletricidade depois das oito da noite, talvez a televisão singela e pequena aquete os meninos após um dia inteiro correndo pelo mato com os pés cheios de barros e o sorriso no rosto. Quem sou eu? Ora essa, eu sou o que recusam a ver mas está presente em todo e qualquer lugar, eu sou a humildade, a esperança, a revolta, a dificuldade, eu sou a pobreza. Tamanha eu sou, mas a sociedade insiste em tratar como escória, eles jogam o meu povo em lugares afastados do centro, que é pra madame não me ver enquanto compra mais um sapato pra sua coleção de primavera-verão, que é pros meus meninos descalços não sentirem inveja do material escolar equipado das crianças nobres.
Meu povo sofrido, se apega na crença, ajoelha pra Deus e pede todo dia "Oh Senhor, prepara algo bom pra mim, pros meus filhos...", posso até ouvir e consigo sentir, mas Deus é Um só, vá com calma que tem uma lista inteira de pedidos pra resolver. Meu povo sofre preconceito, minhas crianças vão pra uma escola onde ventilador falta e a carteira de madeira descasca aos poucos até não sobrar nada. A barriga ronca, eita fome que a criada sentiu fazendo a comida chique da dona rica que explora a criada o máximo que pode. O conformismo é grande, tem que ir muito além pra enxergar o mundo fora da comunidade, tem que ter muita coragem pra descer a ladeira sem saber se vai voltar bem. Alguns aqui estudam na esperança de uma vida melhor, outros vão para o crime porque o processo de aceitar que infelizmente uns podem mais e choram menos é complicado. Vivemos em um sistema em que o dinheiro é o meio pra tudo, então o Senhor é meu pastor, crente que Ele vai me ajudar. Quem sabe. vai?
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