Se o silêncio ensurdece ouvidos que não suportam a ausência de palavras, certamente que por dias inteiros não pude ouvir a sua voz e a solidão que senti ao seu lado, foi voraz em deixar claro que a mim não há espaço. Como um passo antes nunca dado, com uma cabeça que eu nunca tive, como se houvesse clareza em entender pela primeira vez, que indiretamente me fez à loucura completa, fazendo eu acreditar que perguntar é cobrar e expor sentimentos é pesado demais pra ti.

    Então parto, amor. Não há problema. Logo eu que vivo vidas inteiras para outrem e não conto metade de quem sou, que não me permito ser tocada, que não me mostro para ninguém. Pecado meu pensar que poderia fazer tudo isso com você e que ao revelar os meus maiores defeitos, as minhas armadilhas, as minhas incoerências secretas, as piores coisas que digo, você iria querer ficar.

    Não houve despedida, mas fiquei na linha te esperando, contando com o momento que você acordaria desse transe maldito e me diria que ainda é aquele alguém cheio de sonhos, entusiasta, com vontade de ser feliz e de realizar o mundo. Não foi por falta de amor, você sabe, mas dentro do plano de te manter aqui, depois de dar o meu melhor, me diga o que mais eu poderia oferecer? Eu já não sei.

    Permaneço portanto fazendo o que tem que ser feito, como esse ser que nunca fugiu do sofrimento mas está calejado de sangrar. Pensei em alguns momentos que seria você, tanto a ponto de esquecer de mim, de quem eu sou agora. Tenho a idade que planejei findar essa vida lá atrás, mas eu quero estar viva e atina o suficiente para pentear os cachos de Elis e lhe apresentar todas as músicas que ouço com a minha mãe. Os dias ainda seguem cinzas, mas voltei a ouvir mais vozes, mais sons, mais gente querendo falar comigo. É estranho porque lido bem com o vazio, mas parafraseando quem eu não paro de escutar, outrora é pesado e não há paz. É só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte.

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