Cleey


    Pergunte a mim como lidar com o luto e eu ainda não sei a resposta, sinto um gosto amargo, uma inquietude de existir em um mundo, que aos poucos, me tira pessoas que gosto tanto, que inimaginavelmente não fazem o menor sentido não estarem aqui. Mas voltando no tempo, me pergunte sobre um ano que me marcou em tantos níveis e eu prontamente direi que foi 2012, o ano que eu te conheci. Também foi quando apareci com uma franja no rosto repicada com navalha, que passei a usar só All Star preto e que você provavelmente ouviria alguma música do Black Veil Brides ao entrar no meu perfil do Orkut.

    Aos conhecidos, eu estava assumindo uma nova personalidade que de certa forma, causava estranheza. Você tinha a minha idade e dentre tantas pessoas que fui adicionando aleatoriamente para compor a minha rede social com mais gente igual a mim, você estava lá e aos poucos fomos compartilhando músicas, amores, nossa rotina. Uma espécie clássica de amizade à distância que só se anseia por uma visita e eu sempre te achei tão parecido comigo, exceto pelo fato de que você sempre foi alguém cheio de vida, cheio de amigos ao redor apreciando a sua companhia, alguém que tinha uma ânsia imensa em viver. Por isso acho tão injusto a sua ida.

    Nosso encontro aconteceu só seis anos mais tarde, inexplicável já que morávamos relativamente perto, mas coincidentemente tudo aconteceu como deveria. Fui até a sua cidade, num endereço que ficava exatamente no bairro onde você morava e ansiosa quando te vi vindo até mim, lembro que passava uma moto fazendo um anúncio ao som de Monster da Meg & Dia, só que aquela versão eletrônica. Dei risada, porque ouvíamos essa música anos atrás e ali ela se tornara a trilha sonora do nosso abraço longo e apertado. A vida tem essa série de coincidências. Ainda vestíamos preto, mas não éramos mais emos: agora você mantinha uma barba tímida da idade e eu assumia os meus cachos, mas passamos a relembrar como éramos e o que havia nos levado até ali, sentados num chão quente por horas, esse foi o nosso único encontro em anos de amizade.

    Sua partida foi precoce, algo que demorei muito tempo para digerir. Desesperada, a quilômetros de distância, fiz o que estava ao meu alcance sem poder te alcançar uma única vez. Nunca entendi o que de fato aconteceu e diante dores maiores, me recolhi em me contentar a entender que você só tinha partido. Aos 25 anos, aquele menino que conheci com 13, já não estava mais aqui e talvez, quase ninguém entenda a grandeza de tudo que senti e sinto por você, mas nossa conexão era tão grande, que por duas vezes sonhei que você morria. Uma delas te contei, mas disse “dizem que significa muita vida” e você me respondeu “que assim seja”, da última vez que sonhei em dezembro de 2023, não tive coragem de falar, mas te mandei mensagem perguntando se estava bem. Pensei que me acharia paranóica por ter tantos sonhos mórbidos assim.

    Sinto que falhei, que pela rotina de gente grande, consequentemente fomos nos afastando e eu devia ter sido mais presente. Pra quem fica, sempre é essa eterna sensação de que mais coisas deveriam ter sido feitas, mas assim como nosso encontro ao acaso, talvez tivesse que ser assim, não sei. O tempo foi passando, mas eu lembro de você quase toda semana e estive num show ano passado, que ao tocar Can You Feel My Heart pensei e te dediquei, porque essa era uma música que gostávamos de ouvir. Você é um pedaço importante da minha vida e não há como arranca-lo, te levarei para todos os lugares, onde é que eu esteja. Eu amo você, meu amigo e não será essa distância de planos que irá mudar isso. Faz um ano que você se foi e eu sinto a sua falta, mas sei que você mora aqui dentro, eu gosto de pensar assim. 


Para meu amigo Clesley Donato da Silva 🤍

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