Me cortaram as asas,
desde então passei tempo demais tentando voar para longe deste dia, sem proferir em voz alta ou deixar cicatrizar. A cada tombo que sofria, ficava mais difícil evitar que agora eu sou outra pessoa e essas feridas ainda não se curaram. Pensei que em algum momento deixaria de fazer sentido ou que minhas penas pudessem crescer como antes, mas tudo que colecionei foram medo absolutos então aprisionei o meu ser, me apaguei. Pois quando brilho, é quando mais chamo a atenção de quem se espreita no escuro, à espera de podar asas tão ingênuas.
Me arrancaram o que eu tinha de mais íntimo. Deitada no chão gelado de um quarto qualquer na madrugada, então passei a me vestir mais do que o costume e tive que me despir mais do que gostaria, vivendo a dor de não me sentir mais do que um mero objeto. Mas hoje não, o relento não mais me cabe e admitir que me tornei a minha pior versão é o que tem me aproximado da melhor, é entender que precisei me recolher, deixar a ferida sarar. Dizer às outras até que pare de doer ou que eu finalmente não atribua mais a culpa a mim.
Eu me transformo numa espécie de raiva e não vou mentir que não confio nestes vermes, pra mim são todos egoicos, prontos para tirarem o que você tem de melhor. Mas a mim não, não dessa vez! Lembrar de todos os momentos, não para remoer a aflição, mas para limpar o trauma e a partir daí, me reconhecer e olhar no espelho até que eu não sinta mais vergonha. O amor restaura, eu sei, mas o ódio é quem dá o combustível quando tudo que você conhece é a capacidade de incendiar lugares. É que hoje eu me liberto dessa prisão que me fizeram acreditar ser meu destino, essa gaiola que se chama sentença e sempre repeti a mim mesma que eu não tenho dom pra vítima. Talvez tenha chegado a hora de prestigiar o medo de todos os meus algozes e não ser empática pelo sofrimento deles. Não é vingança, é a minha libertação para seguir em frente e permitir que a minha Lilith assuma o controle novamente.
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