viva vivian
Dia 22 de outubro, lá em mil novecentos e noventa e oito, eu decidi que viria. Inesperada, já que a cesárea estava marcada para novembro e preguiçosa, porque fiz minha mãe ir ao hospital de madrugada e só nasci às 10h30. Mas não dei canseira, não causei dor, cheguei silenciosa. Mamãe conta que para chorar, ganhei um tapinha do médico, mas que também não fiz muito desespero. Eu estava pronta para vir, talvez essa tenha sido minha única certeza por tantos anos. Quando saímos da maternidade, chovia muito e era dia de segundo turno da eleição. Nasci no último dia de libra, signo do zodíaco, para a alegria da minha mãe que detesta escorpião, também ganhei um álbum de fotografias, cuja a capa está estampada com um desenho de estrela e uma escrita “Aqui nasce uma estrela” e por muito tempo, eu acreditei que realmente fosse.
Dentro do meu mundo, eu era uma só. Nunca estudei com outra Vivian, então para mim, com o meu nome, só existia eu. Sou filha única, talvez isso tenha contribuído bastante. Passava horas sozinha brincando com miniaturas ou imitava os clipes da Britney Spears quando ia para o trabalho da minha mãe. Quem me dera tivesse crescido assim, mas muitas coisas aconteceram no caminho e eu perdi por muito tempo, o domínio da minha própria saúde mental. Aos 15, Machado de Assis realmente estava certo, tudo parece infinito: o amor, o sofrimento, a alegria, as espinhas, a falta de amigos. Tudo é motivo para você se lastimar, mas eu já enfrentava guerras maiores dentro da minha cabeça. Nunca consegui me projetar no futuro, porque sentia que não passaria dos 18, sentia que não havia vida para mim e fui fazendo o que deveria ser feito, até piscar e me dar conta que já tinha 23 anos. Bom, e aí? Não sei, alguma coisa precisou mudar.
Reclusa durante o isolamento social, muitas questões vieram à tona. Situações que precisei lidar comigo mesma, enfrentamentos internos. A vida não caminhava, perdi a graça em quase tudo, senti que necessitava da atenção dos outros para não me afogar tanto naquilo que estava sentindo, mas me vi sozinha: como quando brincava na infância ou passava finais de semana no quarto na adolescência. Não! Eu não cheguei mais cedo para viver desse jeito, me recuso a deixar essa dor me vencer. Ela não vai! Depois dos 24 anos feitos, tomei as decisões que mais me machucaram, mas eram necessárias e me abdiquei de tudo. Se é para estar só, prefiro estar com Deus e assim fiz, fiquei um ano para curar feridas de uma vida inteira, agora assumi as rédeas da minha cabeça: nada mais pode me dominar. Foi um processo tão poderoso, de um amadurecimento tão intenso, com tantos aprendizados e observações, que eu me sinto renascida. Pronta para apreciar a vida, com sede de compensar tudo que eu deixei. Aqui estou eu e esse foi o percurso bem resumido do dia que nasci lá em noventa e oito e do meu renascimento que se concretiza aos 25. Nunca é tarde para começar e eu ainda tenho um privilégio danado, porque graças a minha voz fina e a pele que herdei, quase sempre me dão dez anos a menos, então, eu estou bem!
Feliz um quarto de século para mim!
Fotografia inspirada no álbum Live Through This (1994) da banda Hole.

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