Esse chove e não molha


    Quase sempre tento me convencer de que não houveram sinais, só para dizer a mim mesma que você de alguma forma mudou. Mesmo assim, ainda me lembro que fui eu quem puxou o primeiro papo sobre vinho, que sentou do teu lado no sofá, que mandou mensagem e que cobrou aquele beijo. Provavelmente eles estiveram na minha cara e eu não pude enxergar, teus olhos roubaram o foco. 

    O fato é, que de vez em quando, ainda vejo tuas roupas espalhadas pelo chão e pouca chama entre dois corpos, que talvez se apague, talvez alguém assopre. São corpos que não se beijam, não se tocam, apenas escutam e anseiam por algo que os façam esquecer por algumas horas, que esses corpos, quem sabe, sejam só amigos. No coração, muitas memórias derramadas como gasolina, prontas para pegarem fogo, mas as mágoas já secaram. Quase nada surpreende. 

    O muito às vezes é passageiro e eu não tenho todas as respostas e não sei o que dizer, sei que permitimos que o silêncio invada, viciados em telas, mais do que no gosto que nossos beijos tem. Dos vazios, talvez a ausência de toque, de sentir o tempo todo que existe mais amor do que o fraterno. Daí as mãos suam, porque conheço essa história e tenho medo do abandono. Prefiro ir embora antes, sempre foi assim. 

    Junto o que tenho e vou embora, nômade no peito de vários, com ar de quem nunca esteve e muito gosto de nicotina na boca. É que agora é diferente, eu sou outra pessoa e essa nova versão, me diz que sou serena, que preciso ter calma. Mas cansei tanto a vista tentando ver o que quiçá não existiu, que tudo que enxergo é alguém que se desespera em demonstrar o que sempre morou nas palavras. 

    Imprevisível é o coração, mais inesperado é cérebro e o amor mora nos dois, mas a racionalidade hoje bate no meu peito também. É que eu estou ficando velha e pouca coisa me causa efeito, já não acredito em quem profere “saudade” e não faz nada para diminuir a distância. Com um quarto de século vivido, já perdi e ganhei muito, não tenho medo da dor e da alegria. Espero encontrar uma resposta, embora no fundo, eu já saiba onde isso termina.


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