Amanheceu e as luzes solares tocam os móveis de madeira de casa. Meus pés curvados andam na pontinha, faço gracejo, fico imaginando se eu teria futuro se tivesse insistido em ser bailarina. Na minha cabeça, acho que sim. Eu sempre venho aqui contar que existem dias terríveis para viver dentro do meu corpo e mais um monte de coisas tristes, mas a verdade é que o silêncio me conta tudo e também sinto uma certa graça em ser eu.

    Gosto do meu nome e da minha capacidade de enxergar o mundo, de ver beleza nos pequenos detalhes e de como choro facilmente quando vejo algo soturno. Sou extremamente sensível e não abro mão disso. Lá fora sou tão durona e às vezes assumo uma postura que me protege das más línguas, mas dentro de casa canto enquanto espero a água ferver e tento me manter fiel às poucas crenças que me sobraram.

    Quando eu era criança, quase não falava sobre mim e hoje o que mais faço é me observar e observar os outros. Tenho estado mais quieta e também um pouco esquecida, esse é o preço que se paga por se conhecer e se priorizar e se me permite dizer: não é arrogância assumir que gosta de si mesmo ou é? Pra variar, não tenho certeza se ainda cativo alguém, mas penso muito em quem passou pela minha vida com um certo carinho.

    Um tempo atrás, descobri que toda essa dor que descrevo, fazia alguns se identificarem e aí me senti mais deprimida ainda, queria que quase todo mundo fosse muito feliz e percebi que ninguém é o tempo todo. Mas me disseram que com os anos, tudo ficaria melhor, porque eu só seguiria o fluxo da vida e esqueceria de sofrer. E eu recusei. Pra mim não faz sentido deixar de ser quem é e viver uma vida que esperam que você viva. Deve ser por isso que daqui três meses faço 25 anos e meu processo parece tãaaao lento. Não sei se quero falar disso por agora, de qualquer forma, quando fecho o Instagram e volto para coar o meu café, esqueço que existem essas comparações medíocres e que se eu demorei 22 anos para querer estar viva, nada mais justo que agora eu me conheça para viver bem.


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