Esguia
Quando eu comecei a escrever, eu tinha muita vontade de dizer ao mundo coisas que eu não conseguia dizer a pessoas que estavam do meu lado, por exemplo. No começo, era uma distração, um universo que criei para me sentir alguém, para conseguir expressar tudo aquilo que guardava dentro de mim. Eu não vivia muito bem uma vida, eu sempre me ajustei às necessidades ao redor, sempre cedi meu espaço para que outra pessoa pudesse se destacar. Mas ao chegar em casa e passar as minhas tardes num completo silêncio, sozinha mas comigo mesma, eu escrevia sobre dores que sentia e também sobre amores que eu gostaria de viver. Realmente, um mundo a parte, uma transferência das miniaturas que já não me contemplavam: troquei por palavras.
Mesmo assim, em algum momento, pessoas ao meu redor souberam desses textos e apesar de alguns elogios, ainda conseguia sentir a pena transbordar em seus olhos. Muitos já me disseram que não faziam ideia de como podia viver em tamanha tristeza, mesmo sendo tão discreta e a esses, eu respondo que não me acho tão mais triste assim, só tenho coragem de colocar pra fora tudo de ruim que às vezes me sufoca. Mas eu não quero que sintam pena, não gosto quando agem com dó. Eu gostaria de ser uma potência pro mundo ou pras pessoas que me conhecem, sei lá, também não sei se faço algo pra que me vejam assim. Às vezes acho que não. Acho que ainda tenho muitos problemas em como as pessoas me enxergam e toda essa exposição das redes sociais, sempre me faz pensar que passamos uma imagem que não existe exatamente. É por isso que parei de me comparar.
E aí eu venho até aqui, num lugar rodeado de viagens bonitas, comidas caras e encontros fantásticos, dizer que existem dias que quero morrer e que não tenho mais quase nenhum amigo. Tenho mais livros que amizades, penso mais antes de falar, coleciono lembranças que não se apagam e perdi as esperanças em criar grandes conexões. Particularmente falando, pra mim todo mundo é triste de vez em quando, tentando dar o melhor de si e se aproximando das pessoas por algum tipo de interesse. É por isso que eu passo finais de semana sozinha dentro do quarto: não tenho nada a te oferecer e cansei de fingir ser algo que não sou. Tenho minhas parcelas de culpa, também já parei de conversar com pessoas sem me explicar e segui em frente, mas isso não é honesto e hoje eu reconheço. Acho um tédio finais mal resolvidos então me diga que não quer mais me ver e tudo certo.
Nós nos enchemos de tanta coisa e nunca estamos satisfeitos, como pode? É sobre isso que escrevo e sempre vou escrever: este aqui é o meu universo e fico feliz quando alguém para pra ler, então por favor, não tenha pena. Foi ter chego no pior buraco do fundo do poço, que hoje sinto alegria quando respiro um ar puro. Eu tenho os meus momentos. Sei também que sou lisa, que escorrego das mãos sempre que me perguntam por que estou tão triste, é que eu sempre fui discreta mesmo, sabe? Tenho muita dificuldade para mostrar minhas vulnerabilidades e sempre vou preferir escrever. Odeio sentir que incomodo e odeio pensar que talvez se lembrem de mim com um certo pesar. Elejo a memória do meu sorriso com dentes tortos e abertos em suas cabeças, não quero chorar na frente de ninguém.
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