Algo ou alguma coisa
Mas esse gosto eu já conheço, não me surpreende. Ele amarga a boca, paralisa as mãos e aperta o peito, às vezes dá uma tremenda falta de ar. Te faz querer chorar ou sentir qualquer coisa além do que você está sentindo. Dá vontade de gritar ou quebrar tudo ao seu redor, algo que possa aliviar um pouco dessa angústia. Algumas vezes te dá uma tristeza imensa, outras, uma profunda raiva ou apenas um vazio gigantesco. Acho que esse é o gosto da dor.
Dentro de mim existe um oco, resultado do tanto que me permiti o desgaste. Para poupar pessoas, não me poupei do sofrimento e deixei que ele me corroesse até aqui. Quando grito, ouço o meu eco e quando choro, salgo as feridas que não se fecham e me machucam. Desenvolvi maneiras de me mutilar sem que percebem, tento causar o menor dos transtornos para os que estão ao meu redor. Acabo passando despercebida a maior parte do tempo, mantendo consideração por alguns que não mantêm por mim.
Mas eu queria mudar, queria que tudo fosse diferente do que é. Gostaria de acordar e ser outra pessoa, alguém que enxergasse a vida mais leve ou causasse mais impacto em outras vidas também. Tento quase sempre me explicar que as circunstâncias me trouxeram aqui e me deixaram sozinha com os meus traumas. Olho no espelho, após mais uma recaída e choro.
Estou me traindo, me permitindo mais uma vez que a dor que os outros me causaram me domine. Não sou mais essas lembranças ou aquela pessoa que foi machucada. É o que tento dizer a mim mesma. Na verdade, estou tão à mercê, gastando os meus dias esperando algo bom me acontecer. É que eu queria tanto um carinho na alma, uma espécie de abraço divino que fizesse eu me encontrar dentro da minha pele.
Será que um dia respirarei aliviada sem que essas vozes me digam que eu não mereço estar aqui? E eu ando pela multidão e me sinto tão só, eu não confio em ninguém e ainda assim, espero a minha tranquilidade que pouco se incomoda. Alguma coisa que venha e acalme esse peito ansioso, que arde toda vez que percebo que eu não me encaixo. Anseio por algo que ainda não nomeei, como sempre digo, mas que é esse conforto terreno ou celestial que me faça sentir em casa outra vez.
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