mas isso tudo me dá frio na barriga demais
Eu costumava deslizar as minhas mãos por suas costas nuas. Deitados, conversávamos sobre a vida e seus desdobramentos, sobre o quanto o mundo pesava toneladas do lado de fora do seu quarto. Ainda que disséssemos todo tipo de coisa, nossos momentos eram únicos e de alguma forma, fazer amor e conversar eram nossas terapias. Desde o começo eu te contei o meu caos e saiu tão fácil da minha boca, que jurei que você iria embora, mas não foi. Ficou e disse que tudo bem, estava ali para me acolher. Te amei desde então. Mas em algum momento perdemos isso e a rotina foi nos engolindo, sobrecarregando os ombros e os diálogos sumindo. Daí em diante, tagarelei sobre bobagens: sobre cores que gosto, lembranças da infância, sobre bebidas que já tomei e mesmo assim um silêncio crescia como um elefante que nos acompanhava por todos os lugares que íamos. Então vieram as brigas e cada vez mais frequentes, iam nos partindo ao meio, nos quebrando mesmo quando insistíamos em colocar fitas e remendos. Ao ponto de que a solidão cresceu aqui dentro e tenho medo de ir a lugares porque sempre brigamos. Faltaram as palavras e não conversamos mais como antes, também não fazemos mais sexo com tanto amor, não tem beijo de língua, nem surpresas emocionantes, nem carinho matinal. Só um silêncio absoluto ou uma briga arrebatadora. O que fizemos com aquele casal de 2019? O matamos, trocamos de lugar com ele e não há nada que possa ser feito? Será que verdadeiramente tentamos mudar tudo isso ou só nos convencemos de que somos os melhores porque nos dizem isso o tempo inteiro? São perguntas que ecoam e que ainda têm muito potencial para doer aqui dentro de mim. Você me pergunta muitas coisas, aqui estão algumas das minhas dúvidas. Porque juramos um amor eterno que não estamos construindo no presente e isso me assusta. Não sei o que é normal e o que não é, mas se está fazendo doer provavelmente não é como deveria ser. Aliás, existe um jeito certo de ser ou só não somos compatíveis como pensávamos que éramos? Não sei se isso importa agora, o lado bom da vida foi ter sentido muito amor enquanto foi bom. Agora o que me resta, é recolher todo esse amor, esses balões e essa festa que meu coração faz toda vez que te vê. Quem sabe em outro momento ou pra mais ninguém. Descobrir na prática que só o amor não é o suficiente, dói pra caramba. Mas aqui me ausento.
Até qualquer dia.
Comentários
Postar um comentário