Carta para Antônio Carlos

 

     Você se lembra de uma segunda-feira que eu não fui à escola? Eu estava na primeira série e era agosto, como é agora. Naturalmente fomos buscar caixas de papelão nos mercados e quando alguém me perguntava se eu estava me mudando, eu dizia que não, que você quem iria. Mesmo sem entender muito bem o que significava. Essa é a última vez que te escrevo, eu espero, espero que não sinta nunca mais nada dentro do meu coração a ponto de que precise colocar pra fora. 

    Neste dia, você me colocou numa picape velha e me levou para conhecer a sua nova esposa, sem que eu soubesse, na inocência de uma criança de seis anos, você me disse que eu deveria entrar numa loja e entregar algo para uma mulher e assim fiz. Na verdade, tudo isso era apenas para ela me conhecer né? Acho engraçado como pensa que não lembro, como tenta fantasiar por aí que o processo foi tranquilo, mas você pode enganar a todos eles menos a mim. Eu estava lá, vi tudo acontecer, eu senti a dor. 

    Minha mãe completamente desolada teria deixado você levar todas as coisas que tínhamos em casa, mas eu te impedi de levar a minha televisão e mais alguns objetos. Se lembra disso? Se lembra que se você não tivesse sido descoberto, teria saído de casa sem dar satisfação? Como você achou que a minha mãe me explicaria se chegássemos em casa e suas coisas não estivessem lá? Você não pensou o quanto isso seria covarde e doloroso? Talvez mais do que já foi.

     Eu posso passar horas aqui, relatando a dor que senti quando você passou por mim de moto e me ignorou. Na garupa estava a sua mulher e você decidiu que não seria uma boa ideia parar para me ver e não imagina o quanto eu chorei por isso. Eu chorei de soluçar, sabe? Aquela dor que não saia por nada do meu peito, enquanto a minha tia Gilda me consolava. Agora você me diz, com seu discursinho pronto, de que separou da minha mãe mas não separou de mim? Como ousa repetir isso em voz alta? Sabendo que nos primeiros anos do seu relacionamento você simplesmente esqueceu que eu existia. 

    Os anos foram passando e o tempo que você tinha comigo a noite, quando a minha mãe ia para a faculdade, você me deixava na sua mãe e ia embora. Só depois voltava para me buscar, então penso: será que você já quis passar um tempo com a sua filha? Ou será que presentes caros e sorvetes são o suficiente pra você? Aliás, deixa eu te dizer uma coisa, não são! 

    Eu morei na casa da ex-patroa da minha mãe, passei por maus bocados lá e você raramente ia me visitar. Eu precisei de você diversas vezes e você não aparecia, também passei domingos inteiros na área de casa esperando por você e adivinha? Eu nunca ouvia o barulho da sua moto. E o que você pensa disso? Eu gostaria realmente de saber o que se passa na sua cabeça. Você consegue deitar a cabeça no travesseiro e dormir sabendo que causou tanta dor para uma criança? Depois usa a desculpa de que o que nos afastou foi o fato de eu ter me mudado de cidade aos 11 anos de idade. Isso é cômico. 

    Desculpa, se eu não puder rir da situação, provavelmente chorarei e não quero mais. Não depois de hoje. Na adolescência, eu claramente estava revoltada e você não compreendeu. Queria que eu atendesse o telefone e conversasse como se nada tivesse acontecido, mas veja bem, não rolou. Eu guardei tanta mágoa dentro de mim que desenvolvi uma depressão crônica que me trouxe, mesmo sem esperança até aqui, que me fez começar a escrever. Olha só, pelo menos algo bom no meio desta história. 

    Eu te odiei infinitas vezes e não tenho medo de dizer isso. Foi você quem causou. Você me fez te odiar, te xingar e me detestar principalmente por ainda assim amar você. E por tantos meses estive afundada em sentimentos que eu não sabia lidar e não sei até hoje, a ponto de que o dia dos pais pra mim é horrível. Eu odeio o dia dos pais e sinto inveja quando vejo pais e filhos trocando carinhos. Também me odeio por sentir inveja. Mas pra você, tudo bem, você deve se achar o melhor pai do mundo só por não me bater ou trancar a geladeira no quarto como seus pais faziam, né? 

    E quando é confrontado, sempre foge, não assume a culpa e isso me mata aos poucos. Porque além de me sentir triste, acabava me sentindo culpada por não te dar oportunidade e resolvi dar. Dei uma, duas, três, quatro, cinco até que chegamos aqui. Você não imagina o esforço que fiz para ter aquela conversa com você no dia que me comprou um celular novo. 

    Você não imagina quantas conversas na terapia foi preciso para aquilo e eu confiei em você de novo. Me entreguei e pensei ser a pessoa mais feliz do mundo, pensei que finalmente você gostaria de me conhecer, que você gostaria de se aproximar de mim e que suas ajudas financeiras neste momento de pandemia, eram de coração. Mas me enganei, não é mesmo? Você tem esse dom de sempre me decepcionar e agora estou de coração partido.

    O pior é que mesmo se você ouvisse a minha dor, debocharia ou falaria que tem problemas piores. Este é o seu problema, é egoísta e narcisista. Tenho orgulho de não ter herdado estas merdas. Se um dia ler isso, seja sincero comigo ao menos uma vez na sua vida. Porque você faz viagens, compra carro, tem moto e milhares de coisas e acha que nossa relação se resume a isso? Eu infelizmente ainda preciso de você e me dói te ouvir dizer que não tem dinheiro. 

    Eu não queria precisar do seu dinheiro, eu queria o seu amor. Mas já que não tenho nada disso, o dia que eu conseguir ser independente, nunca mais ouvirá a minha voz, também não vai saber se tive filhos, se me mudei... por favor me esqueça como fez quando eu era criança. Eu cansei de me doar por alguém que não se importa comigo só porque sou sua filha. Já não basta o castigo que é olhar no espelho e ver seu rosto, porque infelizmente sou igual a você fisicamente. 

    E antes que você se faça de coitado por essas palavras rudes que aqui escrevi, saiba que você nunca teve a delicadeza de pensar em mim, então por que eu deveria ter com você? Eu só queria ter um pai como esses que vejo, que se importam, que aceitam o filho de qualquer maneira e que façam as coisas por amor, sem jogar na cara depois. Mas não tenho e preciso entender.

    Acredita que esses anos todos, eu continuei sendo aquela criança que te espera na área de casa, e você não veio. Apenas se lembre que sou sua única filha e um dia, essa conta vai chegar para você, a vantagem é que essa mesquinharia sua vai pelo menos te permitir pagar alguém para limpar a sua bunda e te dar remédios quando estiver idoso. Por que eu precisaria cuidar de você, se você nunca fez questão nenhuma de cuidar de mim? Passar bem. 


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