O azulejo do banheiro

 

  Do lado de casa tinha uma academia de balé, então aos finais de tarde eu me colocava no quintal para apreciar as músicas das aulas. Era a distração que eu encontrava para abafar a solidão e o gosto amargo do cigarro sufocava a minha saliva. Essa foi a minha vida durante anos. Me sentia isolada, inconsolável, distante a ponto de que nenhum amigo poderia me alcançar e eu tinha um ar sombrio que me afastava das pessoas. Na verdade acho que me excluíram tanto, até que eu finalmente aprendi a ficar do outro lado. Sozinha. Eu descobri certas coisas cedo demais quando não havia maturidade e ao mesmo tempo sempre me senti desconfortável, atônita e intrínseca. De um modo que não me identificava com ninguém, também não tinha muitas expectativas. Não era alguém divertido, não tinha várias amigas, também não saia, não via pessoas. Eu estava fodida e minha mente sabia. Mas aí nós crescemos e esses traumas vêm conosco, eles nos levam a lugares e nos deixam sozinhos lá. É aterrador se você é do tipo de pessoa que não inibe o que sente, mas se você for como eles, provavelmente tenta esconder de si até não poder mais. Mas o sofrimento é inevitável, sabe? A sensação que tenho, é que desde criança eu sei desses detalhes e quanto mais eu cresço, quanto mais velha eu fico, as feridas não se fecham como me falaram que fechariam, pelo o contrário, cada vez mais tenho feito reflexões acerca da vida, dos caminhos, das pessoas e dessas feridas. Aí me vem aquele gigantesco sentimento de solidão, como se eu estivesse novamente sozinha, ouvindo música clássica aos fins de tarde e fumando um cigarro. Mas eu não fumo mais e também mudei de casa, então o que é isso? Que anseia esse peito cansado e faz lacrimejar os olhos com facilidade... é quase um dom divino enxergar a vida com esses olhos, mas os sacrifícios são a solidão e aquela eterna sensação de não se encaixar. E talvez eu não me encaixe ou talvez ninguém se encaixe mas não tem coragem de dizer. E eu digo porque sou sensível e por mais que eu tente fugir disso, sei que não dá. O coração partido não dá pra evitar.



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