O cômodo fechado

*Gatilho: abuso sexual


 O modo como nossa mente trabalha, é um eterno conhecimento para nós. Ela pode nos levar a extremos em questão de segundos, ao mesmo tempo, que te tira de pensamentos para que você não sofra, não lembre e não sinta. Há quem diga que lembranças são ressignificações e que cada vez que visitamos memórias, desvendamos mais detalhes ou deixamos alguns para trás. Pensando em tudo isso, hoje com os pés em terras firmes, visualizo tudo o que me aconteceu e me permito tentar trabalhar todos os traumas que ficaram, porque me dei conta que correr e fugir das minhas dores não me levariam a lugar algum. Sei que muitas vezes o mais confortável é não enxergar, não bater de frente, mas acredite, isso vai te corroer por dentro e quando você notar, não te sobrará nada, apenas a armadura que construiu por fora. Claro que existem coisas que inconscientemente deixamos em segundo plano, sem sabermos o porquê, nós chutamos pra debaixo do tapete, mas uma hora esses fantasmas surgem e aí, você precisa lidar com eles. Como os meus, que escondi por anos e o pior, amenizei pra não sentir culpa e não culpar quem merece. 

 O ano era 2016, eu estava passando férias em minha cidade natal e tinha dezessete anos. Quando se tem essa idade, você quer agir como uma pessoa adulta, afinal, você está a um passo de responder legalmente pelos seus atos, mas você acaba percebendo que não muda quase nada depois do aniversário. Eu conhecia uma menina e às vezes, nós nos beijávamos quando eu estava lá. Na verdade, na minha cabeça o nosso caso era bem real e para ela, não passava de uma curtição, por isso, ela me levou a lugares e me apresentou a pessoas muito mais velhas que eu. Pessoas das quais comecei a frequentar a casa e que julguei confiáveis porque tinham filhos, enfim... num dia eu e essa garota fomos para a casa dessas pessoas, mas tivemos uma briga terrível e ela foi embora, me deixando lá. Eu estava nervosa e tomei naquela noite duas latinhas de cerveja, nada que fosse me deixar bêbada ou me baquear, porém busco na minha cabeça e só me lembro de beber a segunda lata, não mais que isso. Depois, você já deve imaginar pela minha imensa introdução e o aviso que colocarei ali em cima, mas preciso descrever. Faz parte da cura. Eu acordei no meio de uma transa, na qual estava eu e as pessoas da casa, um homem e uma mulher. Eu estava completamente nua e no meio de um ménage à trois, meio tonta e sentindo o meu corpo pesar uma tonelada, não conseguindo me mover. Então o que fiz foi esperar acabar, porque eu estava completamente imóvel e mal conseguia falar, estava fraca. Quando acabou, eu fiquei um tempo lá, olhando para o teto. 

 A pior parte foi que para ir embora, o homem se ofereceu para me levar e eu sem entender o que estava acontecendo, aceitei. Fui o caminho toda quieta, respondendo o básico quando ele me perguntava algo. Cheguei no meu destino e não conseguia dizer ou sentir nada, somente caminhei para o banheiro e tomei um banho. Me sentia suja, me sinto só de contar e me senti por um bom tempo depois que aconteceu. Tanto que disse a mim mesma várias vezes e inclusive em voz alta que eu causei isso, que de alguma forma eu devo ter demonstrado interesse. Mas não. E não há qualquer brecha para esse pensamento que alimentei por meses, ao mesmo tempo que bloqueava essas pessoas em todas as redes, porque elas agiram naturalmente depois do ocorrido e fiquei um tempo afastada da minha cidade natal. A ideia de ver qualquer um dos dois na rua me assombrava e me assombra até hoje. Temo pelo o que pode acontecer, pela crise de ansiedade que posso ter, é horrível só de imaginar. 

 Por anos, eu tranquei tudo isso num quarto escuro e segui a minha vida, por isso digo que a nossa mente é um eterno conhecimento. Ao mesmo tempo que eu tinha consciência de tudo pelo qual passei, ainda assim minha cabeça negava. Quando surgia qualquer lembrança das pessoas ou até mesmo das minhas férias, eu ignorava, pensava em outra coisa e fiquei confortável por muito tempo. Até que esses fantasmas vieram em suas piores versões, modificando inevitavelmente tudo que sinto e sei sobre sexo e essas lembranças ficaram cada vez mais recorrentes por uma série de situações. Em 2019, eu comecei a estudar mais sobre feminismo e aí, trombei em histórias sobre todos os tipos de abusos contra mulheres, também comecei a namorar um homem, então a presença do falo me trouxe à tona memórias ruins. Eu não poderia guardar isso por tanto tempo assim. Em algum momento estouraria e agora que estourou, o que me resta, é juntar os cacos e trabalhar para construir um novo significado. O primeiro passo foi reconhecer que aconteceu e que não foi culpa minha. Hoje em dia isso bagunçou totalmente a minha vida sexual e então, decidi que era o momento de voltar para a terapia. Eu e meu relacionamento não podemos ser afetados por algo que não foi a minha escolha. Quero ser feliz de novo e mereço. Todas merecemos, mesmo que doa no começo, há vida depois disso e é nisso que eu tenho me apegado. O segundo passo é eu me abrir, o que estou fazendo, da forma como sempre me abro. É muito difícil dizer todas essas coisas e até hoje ainda não consigo direito, mas estou tentando, porque não devo me envergonhar e desejo me livrar de todos os sentimentos horríveis que senti decorrentes dessa história. Eu sou uma sobrevivente e desejo ser livre. 



 

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