Contenção
Desde que tudo isso começou, não sou mais a mesma. Na verdade, acredito que a quarentena foi um bônus. Ano passado a minha tia morreu e amanhã faz um ano que isso aconteceu. Na época, eu estava atordoada com a correria do meu último ano na faculdade, correndo para entregar as horas do estágio, correndo para estudar a apresentação do meu TCC e lidando com as provas semestrais. Tudo estava uma loucura e eu nem tive tempo de sofrer. Eu lembro quando recebi a notícia e senti um vazio, eu já sabia que ia acontecer porque ela estava muito doente, mas não é o tipo de coisa que a gente pensa, né? De um jeito ou de outro, evito pensar na morte de terceiros. Quando cheguei no funeral, só sabia chorar alto e de soluçar. Toda a minha família estava lá, todos os meus tios e até tios da minha mãe, todos da igreja dela lotaram aquela sala ao redor do caixão e depois eu voltei, fui embora e minha cabeça estava um turbilhão. Sonhei com ela várias noites, acordava chorando e ansiosa também pela faculdade. Então tudo aconteceu, eu apresentei o meu trabalho, eu me formei com nota dez e extasiada, por finalmente respirar aliviada depois de quatro anos, relaxei. Virou o ano, eu precisava fazer algo. Emprego? Estudo? Carreira? Nada pude apalpar. Logo esse vírus dominou absolutamente tudo, o que me fez me preservar em casa por medo e então, mais uma vez, uma respirada. Pensei “essa é “desculpa” que eu precisava para dizer aos meus pais que minha mente precisa de folga”, sei que pode parecer errado, mas acredite, eu precisava. Dias de quarentena e eu estava otimista, depois semanas e isso foi me preocupando, depois de meses então e eu já não me reconhecia. Pensei que seria ótimo ter férias, mas descobri que minha mente é muito mais ansiosa do que eu imaginava; não respirava mais aliviada. Pelo contrário! Eu senti todos os sentimentos e emoções possíveis: amor, ódio, raiva, alegria e também muita apatia. Tomava anticoncepcional, o que me deixava nervosa por bobagem e meus seios ficaram enormes, eu engordei dez quilos porque tenho um problema de comer compulsivamente e eu estava tão deprimida, só conseguia pensar na minha tia e na falta que ela faz, ou no quanto me sentia inútil e sozinha. Aos poucos a gente se acostuma, mas é muito difícil. Ela é tão especial que muito provavelmente sentirei saudade a minha vida toda. Fiz uma tatuagem pra ela, coloquei um piercing no septo do nariz, continuei pintando o cabelo de ruivo, mas abaixei o tom; não nessa ordem, mas fiz. Já que eu não posso ver quase ninguém e evitei porque sou grupo de risco, as coisas mais banais me irritavam, me deixam triste com muita facilidade, a ponto de que isso me fez querer procurar uma psicóloga novamente. Parei com o anticoncepcional, estava me fazendo muito mal e cortando a minha bendita libido. O que me deixava mais triste ainda. Agora estamos quase no fim do ano, minhas férias estão acabando. Ano que vem tem que ser diferente com vírus ou sem, sabe? Preciso retornar os estudos, arrumar um emprego, aprender a dirigir e ir vivendo aos poucos. Sei que esse ano não foi fácil, senti muito medo e também muito tédio, mas não me arrependo de não ter aprendido uma língua nova ou adquirido um novo hobby, fiz o que deveria ter sido feito. Só eu e Deus sabemos tudo que aconteceu na minha cabeça durante esses meses e quantas vezes pensei em desistir. Agora estou otimista, recuperando meu peso antigo, arrumando a minha alimentação e cuidando da minha mente na medida do possível. Mudei tantas vezes de perspectiva e agora só consigo pensar que algumas vezes, é preciso chegar no fundo, apoiar os pés no chão, para começarmos de novo. Óbvio que digo isso com todos os meus privilégios, não preciso nem mencioná-lo, né? Mas aqui vai um texto do que mais ou menos me aconteceu.
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