Viver por mim
Na obrigatoriedade de ser alguém, eu não existo e enquanto isso, finjo algo que nunca foi meu. É esse meu jeito desengonçado e as pernas bambas quando há nervosismo, mas não sou maluca, tenho mãos e sentimentos e aquilo que me foi dado, é sim muito bem guardado. Não se preocupe. Por tantos anos sentindo o gosto da solidão, a gente acaba se acostumando, e quando tudo nos é tirado, nos sobra o mais importante. Mas se a sua vida sempre foi rodeada de comodismo e conforto, é bem provável que você não entenda isso e quando sentir o gosto, vai achar amargo. Mas veja bem, eu não sou amarga, tenho boca e coração e tudo aquilo que passei, está aqui ao meu lado. Você me pergunta como posso sentir tanta dor e eu te respondo rindo que não sinto nada, não me martirizo nos dias comuns, não fico sofrendo por quase nada do passado. O extraordinário é que por muitos anos, escrevi o que sentia e isso me aproximou de pessoas, hoje eu digo com muita facilidade sobre minhas mágoas e acontecimentos tristes, mas isso não significa que eu sofra e todas essas lágrimas, são por visitar esses momentos, porque lembro do quanto sofri e hoje eu não sofro mais. Calma! Não ache que hora ou outra farei algo comigo, pois a diferença entre nós dois, é que eu digo com mais clareza o quanto já fui triste e a probabilidade de ser em um futuro próximo. Eu não tenho medo, mas não ache que eu goste de viver em luto, tenho olhos e alegrias, sorrio muito mais do que você pensa e faço piada com quase tudo. No fundo, espero que saiba que não sou alguém frustrado. Só enxergo a vida com clareza e falo das minhas lamentações também em voz alta, mas isso não significa que eu viva triste, muito pelo contrário, eu só acho que cumprir essa obrigação de fingir estar feliz o tempo todo, um baita saco! Pois quando digo que não mais quero existir, estou dizendo que não mais quero fazer o que os outros querem, pretendo viver por mim.
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