Incognitude


Dedilho os fios do meu cabelo acobreado
como quem toca violão com paixão
Analisando tudo que sempre fui 
e o que poderia ser
Desse misto de sentimentos aqui dentro
que aos poucos viraram poemas
E a gravidade das emoções que sinto
que me fazem lacrimejar os olhos facilmente
E os fios enrolados; os meus cachos
sinais de resistência do que tenho sido
Porque olho para o passado com apreço
e sinto o futuro incerto
O frio na barriga como quem espera um grande amor
quando na verdade sou apenas eu esperando o próximo ônibus passar
E esse meu olhar meio misterioso
porque evito olhar para o mesmo lugar por muito tempo
Às vezes confuso ou que transparece desdém
mas é apenas uma tentativa de esconder meu estrabismo
E a boca meio aberta que esqueço depois de rir
esses meus dentes tortos que me afasta da perfeição
Porque tenho vencido diariamente lutas internas
que querem me dizer quem eu sou e o que devo fazer
Então delicadamente toco as superfícies com texturas diferentes
porque meus dedos longos são curiosos
E no final milhares de coisas em minha mente
porque ela diz que eu deveria ter feito mais
Mas o orgulho emana e enxágua as minhas mãos
como quem diz que eu fiz até demais
E nessa luta constante de descobrir a minha identidade
porque o ser humano não se contenta em apenas existir
E o tom bronzeado da minha pele que não se bronzeia
características que me colocam em caixas
Me permito deixar que os outros me digam qual a minha cor
quando nem eu mesma sei dizer qual é
Então corro numa tentativa de existir
porque me alimento de abraços apertados
beijos demorados, mão com mão
E o que eles dizem ser indecisão
digo que é amor para dar
Pois me alegra o coração saber que nessa imensidão
sou capaz de amar um homem como amo uma mulher
Outra questão que assola a minha mente
crente que um dia essas questões vão sumir
E o meu dualismo constante por enxergar a religião como um leque 
talvez limitado e nem sempre opcional
A estranha sensação que corre em minhas veias
e as conversas diárias que tenho com Deus
Porque desde criança me mantive tranquila por fora 
com um caos por dentro
E o apreço que tive em observar tanto o mundo ao meu redor
me deu a oportunidade de tentar entender cada um que passa pela a minha vida
Assim me fiz e refiz, milhares de vezes 
milhares de vida
Porque cresci e ainda me sinto desajustada
como quem não é daqui e jamais se sentiu ser
No final, o que eu posso fazer?
se penso muito, escrevo muito e me atrevo a viver 
Mesmo com todos esses paradigmas
eu gosto de dizer que sou incógnita
e ao mesmo tempo, vi-vi-da...


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