Eu sou louca

[Gatilho: relacionamento abusivo]


 Você me diz que sou louca, me segura pelos braços enquanto me olha com esse seu olhar tão furioso. Querido, você ainda me ama? Dizendo o meu nome em voz alta, enquanto todo mundo olhava, meu amor, você me assolava e me controlava quando percebeu meus olhos marejando, te olhando, assustados, quando fiquei no meu modo mais frágil, pois você conheceu o meu lado mais fraco e depois de despir as nuances da minha segurança, disparava palavras agressivas enquanto eu só conseguia pensar; será que ele ainda me ama?
 Nesse vai e vem você me tinha, quando eu chegava com as sacolas do mercado e te via de sorriso bobo com a vizinha do lado, então te questionava e você me dizia que não tem nada a ver, que via coisas onde não há nada para ver e que eu precisava confiar mais em você. Em todos os lugares todo mundo sabe e a minha mãe que cansou de me avisar, as pessoas me olhavam como se soubessem de algo, acho que é algo que eu não sei e talvez nem queira saber. Encontrei um perfume diferente nas suas roupas e você tentava camuflar com o cheiro do seu cigarro, eu deitava do seu lado e você me trocava por um aparelho celular no qual conversava com alguém, alguém que não sei quem é e você se recusava a me mostrar. Eu te questionei, te pedi atenção, você virava pro lado e eu continuava a te perguntar; querido, você me ama?
 Mas que grande ousadia questionar o seu amor por mim, pois sempre foi assim. Era uma madrugada de um dia da semana, estávamos lá na cama, eu acessei o seu perfil e no topo estava alguém falando de forma carinhosa com você, meus olhos me cutucaram pois estavam desacreditados no que acabaram de ler. Eu mostrei para você e te xinguei de mil coisas, me tranquei no banheiro e lá se vai um maço inteiro, como você foi capaz de chamar a outra com o mesmo apelido que me chamava? Eu quis sair de casa, arrumei todas as minhas coisas mas algumas calcinhas e camisetas ficaram por aí. Que droga meu amor, não podia acreditar que tudo isso estava acontecendo e nesse momento você chorou, eu chorei, eu fiquei pensando: "porra, será que ele ainda me ama?". Deitamos na cama, mas dormir com você essa noite foi o maior drama, porque no fundo sabia; você já não era mais meu.
 Em novembro um casamento, o mesmo quarto de hotel, a noiva com o véu e eu desejando o céu. Coloquei um vestido preto, no fundo estava mesmo de luto pelo nosso amor. Nós tivemos mil brigas e uma, mas passamos a noite nos declarando, nos abraçando e você bem sabe, eu bebi álcool com vontade e nessa fiquei bêbada. Mesmo quarto e mesma cama, você na sua trama, acordei no meio da noite assustada e você de costas viradas, vendo isso o meu coração virou pedra. No outro dia a certeza, finalmente vi a alteza e ela estava no último banco de um ônibus velho, tipo, sério? Qual a sensação de ter me dado o seu coração e no outro dia ter encomendado uma visita da sua paixão? Amor, amor, amor... tem noção da raiva que desci daquele ônibus? A partir dali, decidi pra mim te deixar e mesmo assim me perguntava; será que ele ainda me ama?
 Então você me chama de louca, numa festa chorou e ganhou plateia, você suplica meu nome como se eu te machucasse, sendo que tudo que eu queria era te ter só pra mim. Você disse que eu fui a grande culpada pelo nosso amor ter acabado, você havia me chutado, me traído, meu psicológico foi massacrado pelo seu imenso ego. Você disse me amar e na semana seguinte desfilou com uma nova garota, me deixou dando sopa, eu fiquei sozinha tentando me matar e você na balada se matando de dançar. Pra você foi fácil né? Machucar alguém assim fazendo mesmo eu acreditar que era doida, fazendo todo mundo ver a minha fraqueza. Me despiu de todo o amor próprio que eu tinha e quando eu estava nua de toda confiança, me chutou e me deixou com hematoma na alma. Espancou o meu íntimo, espetou o meu âmago enquanto eu estava agachada, sentada com a cabeça baixa, chorando o que eu não tinha de lágrimas, implorando pra você me amar, perguntando se você queria me amar, te pedindo pra você me amar.
 Então eu sou louca, como você mesmo diz. Você sai aos quatro cantos difamando a minha imagem enquanto o que faço é contar que você gritava comigo, socava paredes que estavam ao meu lado, viajava para outras cidades para me trair. Sou tudo isso que você diz; histérica, doida, desesperada e barraqueira. Pois é tudo isso que uma mulher se torna sempre que um relacionamento termina, não é? É sempre isso que o homem sem caráter algum tem a dizer sobre a mulher.

Baseado numa história infelizmente bem real.

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