O espírito resplandecente - Projeto Incógnita com Açúcar





 O texto de hoje é sobre a constante pergunta que me fazem e que só aumentou depois que estive disposta e coloquei na pele o símbolo da banda Nirvana; todo o questionamento sobre Kurt Donald Cobain e seu universo em minha vida. O fato de eu dizer que sou muito fã, não contenta os ouvidos e a curiosidade, e como isso tem um peso enorme pra mim - que talvez muitos não entendam - vou tentar explicar. Conheci a banda Nirvana quando criança, eu tinha em torno de 9 anos, com a famosa música deles; "Smells like teen spirit". Eu fiquei fascinada pela melodia e não me contentei em não ir atrás e descobrir quem cantava, mas com o passar do tempo eu esqueci o nome. Sempre tive uma influência de rock muito forte pela minha mãe e naturalmente esse foi o estilo que mais contemplou a minha adolescência, não tem como negar, o rock é sensacional. Aos 11 anos, conheci um amigo pela internet (eu sei o que vocês estão pensando mas eu sempre fui cautelosa com isso), ele falou da banda e eu fui atrás ver, tinha uma comunidade no Orkut e eu entrei, um tempão para carregar os vídeos no Youtube por causa da internet ruim, mas me encantei novamente, eu estava feliz por ser a banda que ouvi quando mais nova e depois disso, fui pesquisando e ouvindo mais músicas, baixando, passando para o celular, ouvindo o tempo todo. Eu morava numa cidade bem pequena na época e era a única a me vestir de preto por lá, quando fiz 12 anos eu e minha mãe viemos visitar a minha tia na atual cidade que eu moro, andando pelo centro achei uma loja que vende camisetas de banda - eu compro lá até hoje - e comprei uma baby look que nem deve me servir mais da banda. Sem brincadeira, eu usei tanto essa camiseta que nem sei. 

Eu com uns 13 anos usando a camiseta
Por um bom tempo, eu entrei numa tristeza profunda, na verdade hoje vejo como um sentimento que estava adormecido e por conta do bullying excessivo que sofri na escola, ele ressurgiu me trazendo à tona essa constante vontade de me fechar e não fazer absolutamente nada. As músicas me ajudavam muito, eu ouvia a voz do Kurt e pra mim era como se ele estivesse ali, me dizendo que "ninguém morre virgem, a vida fode todos nós (Kurt Cobain)", eu estava totalmente confortável nas letras cheias de vários sentidos e significados. Aquilo me reconfortava e eu me sentia menos sozinha no mundo, minha mãe percebendo meu grande interesse, me deu o CD Nevermind. Demorei pra entender o que estava acontecendo e o motivo pelo qual me sentia sempre daquela forma e como sempre tive o hábito de procurar e ler sobre as coisas, decidi procurar sobre a banda até dar de cara com o tempão que fazia do falecimento do Cobain e ai fui mais afundo, saber que o homem que me inspirava havia se matado, era um motivo a mais pelo qual pensava em suicídio. Eu estava coberta de vontade e me faltava coragem, a banda esteve comigo em todos esses momentos e pôde presenciar todas as minhas quedas e erguidas. 
 No final de 2013 eu me mudei de cidade e a minha depressão entrou em um estágio muito fundo, definitivamente eu cheguei no momento de não querer sair do meu quarto e sentia que meu corpo já havia morrido por dentro, mas eu permanecia ali. Quando fiz 16 anos ganhei o livro Heavier Than Heaven: Mais Pesado que o Céu da minha mãe e devorei ele com uma vontade imensa de conhecer cada vez mais o Kurt. Quem é o homem que inspira cada fibra do meu corpo? Se me vejo respondendo a um imenso questionário de pessoas que me confundem com o Wikipédia sobre ele. Talvez eu não consiga colocar em palavras para vocês, mas toda a vida dele me toca de uma forma grandiosa e tudo aquilo que levou o Kurt a ser quem foi, suas ideologias, seus desenhos, as constantes mentiras que ele inventava tentando se convencer, a tristeza em seu olhar. Eu sinto uma energia tão forte quando assisto o show da Nirvana no MTV Unplugged, principalmente na faixa Where Did You Sleep Last Night, no final da música quando ele fecha os olhos e abre rapidamente para cantar o último verso, me vem todo o misto de tristeza que ele estava sentindo. A banda também é um símbolo forte do Grunge e essa anti moda me desperta um interesse imenso, pois admiro tudo que a década de 90 engoliu. Por fim, terminei o ensino médio tendo como mantra a música I hate myself and I want to die e repetindo versos de Milk It, do tipo, "eu sou meu próprio parasita" e "olhe para o lado positivo do suicídio". 

Eu com 15 anos quando resolvi riscar o símbolo em tudo (em mim inclusive)

 As pessoas sempre perguntam porque tenho uma tatuagem com o símbolo bem no ombro e bem, eu não sei explicar ao certo. Em determinado momento, quando eu desenhava o símbolo em todos os lugares pelo o qual eu passava, tentei desenhar em mim mesma e o resultado foi esse da foto. Me lembro de ter mandado essa foto para a minha ex namorada (atual na época, lógico) e falar: "amor, eu vou ter uma tatuagem assim.". E desde aí, eu só fui amadurecendo a ideia, foi tão aleatório e certeiro assim como todas as ideias que tenho para criar as coisas. E talvez vocês ainda estão com essa dúvida na cabeça, do tipo, "ok Vivian, você gosta muito, mas pra que tatuar?", olha, é bem importante pensar em tatuagem quando se quer demonstrar amor por algo ou alguém, eu não iria gostar de ter em mim tatuado algo que lembrasse alguém e esse alguém se metesse numa grande besteira. Eu pensei muito antes de fazer, pensei tanto que quase não fiz por falta de coragem, mas respondendo a pergunta que eu mesma abri, sim, eu gosto tanto a ponto de colocar em minha pele.
 O Kurt Cobain pra mim é como um espírito resplandecente, um ser que não é desse mundo e nunca foi, que veio pra cá e não foi capaz de suportar a maldade humana. Por tantos momentos senti como se ele estivesse do meu lado, fumando um cigarro comigo, admirando o ambiente e tentando tirar algo poético dali. É exatamente assim que vejo Cobain; alguém que queria passar a sua mensagem numa tentativa de aliviar um pouco o mundo, que buscou pela fama para que o que ele tinha a dizer fosse entregue e depois de finalmente ter chegado nesse posto, viu que isso não supria as dores de sua triste alma. O fato das críticas sociais dele em músicas como Rape Me e Polly, dele pedir para pessoas preconceituosas não irem aos shows da banda e nem comprarem produtos dela, de ser uma pessoa livre dos esteriótipos de gêneros e demonstrar tudo isso com uma facilidade imensa em um tempo que essas pautas não eram muito faladas. Existem tantas coisas envolvidas, que eu não saberia explicar a vocês tudo que sinto, eu só sinto. A tatuagem é só um símbolo - literalmente - do afeto que tenho por toda a banda (e nem vou entrar no mérito de dizer que a palavra Nirvana tem um significado lindo pra mim no Budismo). 

A tatuagem é do mesmo lado que desenhei na de canetinha na outra imagem, é que essa imagem aqui inverteu o lado pelo aplicativo que usei para tirá-la. Enfim, é no lado direito pra honrar o desenho.




[primeira imagem retirada da internet
  segunda e terceira e quarta imagem sou apenas 
 eu adolescente]

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