Noite de glamour é pra quem?
As luzes iluminam a casa de show. Los Angeles, Califórnia, me preparo no meu camarim improvisado, dou uma cheirada para sobreviver a esse eterno cheiro de cigarro e sexo. Entro em cena, sou demais, sempre fui a melhor em tudo que faço, talvez se minha mãe estivesse aqui, sentiria orgulho de mim. Eu danço como ninguém. Mês passado escrevi uma carta para ela falando que eu sou a melhor dançarina noturna. Eu sou uma puta, eu sou a menininha de luxo, todos me querem mas poucos me têm. Com a minha pouca roupa sensual, vermelha, vejo os caras jogando dinheiro no palco, recolho rapidamente enquanto me equilibro no pole dance e acho que essa grana vai dar para sustentar meu vício em pó. Todos vão a loucura, mas veja só, já são 04:00 da manhã e eu paro por aqui, nada de bis, preciso voltar pra casa de metrô. As ruas são minhas, não há perigo, eu sou eterna enquanto posso ser, minha maquiagem é forte e depois do expediente, quando me olho no espelho de casa, sem todo aquele glamour e todas aquelas luzes em cima de mim, consigo ver o quanto pareço acabada, me sinto simplesmente cansada.
A noite é uma criança que não dorme para assistir filmes proibidos. Cheiro um pouco para esquecer os problemas, gosto de assistir o jornal da manhã enquanto tomo um café bem quentinho e fumo cigarro. Me mato aos poucos, eu sei, mas todos nós vamos morrer. Odeio quando dizem que estou nessa por opção, sendo que a única opção que tive foi sair de casa por não aguentar mais ver a violência do meu pai contra a minha mãe, aliás, queria trazê-la para morar comigo, mas ela insiste no telefone que está bem lá onde está. As luzes brilham para mim, meu amor, eu sou a rainha da boate e por mais que esteja cansada da vida que levo, sei que pessoas como eu não ficam aqui para sempre. Sou eterna até que dure. Anjos e demônios cercam o meu caminho, mas é o que eu faço. Eu fumo um beck com as travestis do meu bairro enquanto elas aguardam clientes nessas noites frias, eu pego um metrô bem chapada para o meu trabalho e quando as cortinas se abrem pra mim, eu me sinto a rainha mais desejada, quase como uma Marilyn Monroe. Então eu dou o meu show porque é isso que eu e minhas meninas fazemos de melhor, e não adianta me ignorar quando vou comprar leite no mercado ou uma roupa nova em uma boutique qualquer, porque no final da noite, os seus maridos vão assistir a minha bunda rebolando na cara deles. Aceite o nosso glamour, nosso luxo fracassado, entre whisky e bitucas de cigarros eu sou a verdadeira rainha.
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