Um relato aqui de leve
Bom, olhando aqui um caderno, vi um texto que conta a vez mais tocante de quando eu fui consultada, por causa da depressão. Resolvi relatar aqui para vocês, não sei porque, leiam se quiserem. Essa consulta foi em dezembro de 2014.
Me vi em uma sala, peguei meu celular e: "droga, estou sem internet e não sei a senha do wifi", pensei. Olhei ao redor, as paredes brancas de certa forma me incomodavam, estava um pouco sedada com os antidepressivos que tomei, fiquei forçando a vista para ler as letrinhas pequenas dos diplomas pendurados na parede, ser míope é uma merda, desisti e fiquei observando as fotos que tinham na sala. Umas crianças felizes, sorrindo e abraçando um cara, quer dizer, abraçando o médico que entrou na sala logo em seguida. Ele veio com um sorriso bobo, como quem não quer nada além de ser simpático.
- Olá, Vi-vi-an Al-ki-min - disse lendo com dificuldade o meu nome na ficha.
Eu logo dei um sorriso aberto, perdia o controle das coisas com aqueles remédios.
- Oi, doutor.
- Então a senhorita tem depressão?
- É o que dizem. - disse eu revirando os olhos
- É o que os exames dizem. - me corrigiu em um tom de brincadeira.
- Já tive muitos pacientes aqui, diversas idades e jeitos, diversos problemas, Vivian. Me diz, como chegou a esse ponto?
Aquela pergunta me travou, cara. Quer dizer, ele é o médico daquela porra, por que raios aquela pergunta?
- Bom, eu não sei - fui indagando calmamente - me sentia triste demais, não via cor na vida e de repente "bum", depressão de nível médio. Não é algo que eu possa lidar, sabe?
- Sente falta de apetite, Vivian?
- Como pra caramba, viu?!
- Como se sente em relação ao seu corpo?
- Ele é uma droga, me sinto feia e sem autoestima.
- Você se relaciona com outras pessoas? Digo relacionamentos amorosos.
- Minha namorada também é depressiva, sofremos juntas e à distância. Mesmo se não namorasse, eu não daria abertura pra outras pessoas.
- Como anda o namoro?
- Uma merda! Brigamos o tempo todo, aliás, brigo com todos o tempo todo. Os assuntos dos meus amigos parecem um tédio pra mim, eu me afasto deles, eles me ligam e eu deixo o telefone tocar até desligar, depois invento uma desculpa qualquer.
- Isso é grave. - disse ele me olhando atentamente.
- É a vida. - eu queria mesmo sair daquela droga de consultório.
- Você já teve relações sexuais? A depressão afetou sua vida sexual?
- Já tive sim, não sinto vontade nenhuma de fazer sexo com outra pessoa. Às vezes me masturbo, sabe?
- Seus pais sabem?
- Acho que eles não deveriam saber, entende? - meu, se ele contasse aquilo pro meu pai, eu seria uma menina morta...
- Faz algo para tentar aliviar ou até mesmo curar esses sentimentos?
- Às vezes me corto, alivia tanto na hora. Quando me corto, sinto um relaxamento enorme, como se fosse uma droga. Mas não só isso, sabe? Escrevo muito, eu tenho um blog onde posto como é ser uma depressiva nojenta. Pra tentar curar, eu já tentei uns suicídios, nada de especial.
- Uns suicídios?
- Todas as vezes ou algo deu errado ou eu desisti no meio do caminho.
- Escreve? Eu gostaria de ler o seu blog.
- Não deveria.
O médico me olhou por uns instantes, depois pediu pra ver meu braço que eu cortava, acabei mostrando a minha perna também, cheia de cicatrizes bobas. Eu acho que ele percebeu que eu não tinha nem um pouco de vontade de vencer aquilo, ele não viu otimismo em mim.
- Vivian, você é muito jovem e parece ser uma menina cheia de conhecimento. Seu pai está lá fora te esperando, ele espera que você fique melhor mas você não quer, não é?
Comecei a chorar.
- Não é culpa sua, Vivian, a depressão cria esse bloqueio na mente mesmo. Mas seu nível é médio, o próximo passo pode não ter mais volta, principalmente porque você já tentou suicídio. Você tem que prometer pra mim que vai se agarrar a algo que tem fé e vai acreditar que essa depressão vai deixar você. Promete?
- Eu prometo, na próxima consulta vou estar melhor.
Me despedi e fui embora, sai do consultório particular, entrei no carro do meu pai com ar condicionado, tirei meu iPhone 5s do bolso, fomos comer no shopping então pensei: "puta que pariu, eu tenho tudo que eu quero mas nada disso compra minha felicidade, minha alma está fragilizada, eu vou sair dessa merda."
Depois disso, na próxima consulta eu voltei tão melhor que nem pude acreditar, me lembro nitidamente até hoje, daquelas palavras meio frias do doutor, nelas pude ver a que ponto eu havia chegado. Hoje estou melhor, graças a Deus, bem melhor!
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