No último dia

Trecho de uma nova história que estou escrevendo, totalmente fictício, viu? Espero que goste.


"Eram 05:00 da manhã quando ele foi me buscar na delegacia, eu havia passado a noite ali. Sempre muito cuidadoso, trouxe um moletom pra mim e me deu um abraço apertado quando pude sair de lá. Fomos para fora, o cheirinho de começo de manhã penetrava em meu nariz fazendo eu me esquecer daquele horrível cheiro que a cela tinha. - Você me assustou, garota. Disse que ia passar a noite escrevendo com seus amigos poetas e hoje tenho que te buscar aqui na delegacia por dirigir em alta velocidade e estar drogada e bêbada com eles...
 - Está com ciúmes? - disse eu provocando-o. 
 - Mas é claro que não!
Na saída até o estacionamento, havia um carinha de plantão querendo fotografar a minha desgraça. Eu simplesmente ignorei o fato de ser vista saindo da delegacia, entrei no carro com o meu amor e ele me conduziu até em casa...
 Eu poderia aqui falar o nome dele ou simplesmente inventar um fictício para as pessoas não assimilarem que estávamos juntos, mas irei chamá-lo de meu amor. Sabe, a partir daí, eu o enxerguei como o meu maior refúgio, não importava se ele tinha um temperamento estranho, eu era doida demais e ele segurou todas as pontas por mim. Às vezes parecia que ele não me amava, ou até mesmo que ele se interessava por mulheres mais sensatas, mas todos os dias ele beijava a minha testa e me dizia: "Você é um tipo de sonho pra mim, não quero acordar, amor!" e eu me sentia a mulher mais sortuda do mundo. Quando perdi meu emprego de jornalista redatora em um dos melhores jornais, ele me abraçou e disse: "Você é autêntica demais para eles." e eu estava vivendo como uma louca, entende? Bebia pra caralho, fumava mais ainda, estava loucona mesmo... Drogada! E ele continuava ao meu lado. Ele manteve o nosso mundo inteiro nas suas costas e ainda era capaz de sorrir de forma sincera pra mim. Se brigávamos? Óbvio que sim, ele ficava cansado também e eu queria mais carinho, queria que ele me ouvisse enquanto eu recitava os meus poemas e ele muitas vezes acabava dormindo no meio do poema, daí meu mundo caía e a casa quebrava. Como o orgulho é algo muito presente em nós dois, ficávamos dias sem nos falar, mas alguém sempre cedia alguma hora, Ele foi um carinha legal, enquanto queria fazer amor, eu queria fazer só sexo porque quase sempre estava drogada e cheia de adrenalina, daí certo dia passei muito mal e acabamos descobrindo que eu estava grávida. Te juro, ele pulou de alegria com a notícia. Nós ficamos muito feliz com tudo isso, eu até parei de me drogar por amor ao nosso bebê, mas pena que isso durou apenas 6 meses. Foi horrível ter perdido aquela criança, o nosso relacionamento esfriou totalmente e ele me culpava por tudo, tivemos uma briga feia e ele me chamou de viciada enquanto eu chorava no chão. Depois disso, recolhi todas as minhas coisas e deixei o meu amor.
 - Está indo embora? 
 - Não tem mais por que eu ficar, nossa poesia já não rima mais. 
Ah, mas foi muito bom tudo que vivemos. Evito de o encontrar porque sei que seu abraço já não pode mais acolher o meu corpo. Soube que ele casou com uma amiga da época do colegial enquanto eu continuo sozinha, esses dias ele me veio a memória porque mandou uma carta e havia um trecho assim: "Você foi um tipo de sonho pra mim, mas a realidade é um relógio e me acordou cedo demais! Ainda me lembro de tudo certinho, descobri que te amava depois do dia que você foi presa e saiu no jornal, aquele dia fiquei com um baita medo de te perder enquanto você só pensava no meu abraço e na sua droga...". É, sou de amores, mas nunca mais exclusivamente do meu amor..."


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