Relato 01.
Eram duas horas da manhã e de repente um barulho no banheiro, alguém havia batido no vaso sanitário. A mãe acordou, levantou depressa e foi até o banheiro, empurrou a porta emperrada e viu a filha ali, caída no chão. Inconsciente. O desespero correu em sua mente, a socorreu mais apavorada do que se podia estar, viu a lâmina no chão e o pulso da menina jorrando sangue, começou a chorar. Seu desespero era tão grande que mal podia chamar alguém para ajudar e depois de algumas tentativas conseguiu ligar para o hospital. A ambulância chegou e rapidamente foram para o hospital, o desespero da mãe só aumentava. "Por favor, cuide da minha filha!" "Meu Deus do céu não deixe ela morrer, amém..." o que levou a menina a fazer isso? Te digo, meu caro: era uma crise de medo, tristeza misturada com falta de viver e ela tinha uma depressão que seria diagnosticada tempos depois.
A menina teve uma espécie de sonho, talvez aquilo tudo fosse real o bastante também; como se ela estivesse em um corredor escuro, caminhava em direção à luz forte e ofuscante no final do túnel e quando se aproximava da luz sentia seu corpo se aspirando e logo enxergou a luz branca no teto, olhou pro lado e viu um médico e logo em seguida a sua mãe com lágrimas nos olhos, desesperada dando graças à Deus por ela ter acordado. Sim, ela acordou. Seu braço estava imóvel e seu pulso com uma faixa, aquilo tudo a incomodava. Estava ainda meio fora de si mas sentia as mãos de sua mãe tocando o seu rosto e mal sabia na hora, mas depois daquilo viveria muito mais. Depois de sair do hospital começou uma série de exames e também havia consultas à psicologa, mas ela foi apenas uma vez e depois desistiu. Fez um combinado com a sua mãe: sem cicatrizes novas em seus pulsos e sem lâminas também. Depois de um tempo voltou a frequentar a escola, cada vez que via um apontador de lápis sentia uma tentação enorme em ter novamente uma lâmina, um dia até desrosqueou a lâmina de um dos seus apontadores mas a largou quieta e assim foi vivendo, um dia de cada vez. Até ter suas recaídas mas assim como elas, ter também seus dias de sorrisos.
- Sobre uma das minhas tentativas de suicídio.
Comentários
Postar um comentário