Eu nunca a esqueci, ela vive por aí talvez



  E ela andava perdida por aí, tinha lágrimas nos olhos e a maquiagem preta estava toda borrada. Acabada. Seus olhos mortos e tristes mostravam o quanto ela já não tinha esperança, sua boca fazia expressão de quem não está nada bem, seu batom vermelho forte estava manchando nos cantos da boca. Vestia uma blusa preta larga, paetês surrados e uma saia preta colada, um pouco acima do joelho. Uma meia longa toda rasgada e um tênis desses comuns. Ela cobria seu corpo com um casaco preto todo manchado, mas isso a protegia um pouco do frio que fazia. Seu cabelo estava totalmente bagunçado, e na sua mão esquerda havia uma garrafa de uma bebida muito forte. Ela sorria e chorava ao mesmo tempo, parecia muito alterada e gritava na rua: "Não há nada que vocês possam fazer contra mim". Andava nos becos e não era assediada, andava pelas ruas escuras e não era roubada.
Presenciei ela caminhando sobre aquela ponte, dizendo "E se eu pular daqui, podem ter certeza que vai ser só mais uma estatística, não uma solução". Ela dormia em qualquer lugar, a rua era a sua casa, os andarilhos eram seus amigos. Ela fumava sempre que batia uma tristeza, aliás, já nem sei mais dizer se a tristeza era a sua rotina ou se sua rotina era sentir tristeza. E quem ousasse conversar com ela, ela tratava muito bem, não precisava sentir medo. Mas, eu me lembro, ela afirmava que medo, era o que todos nós precisávamos sentir dela. E quem ousasse mais ainda, perguntar sobre sua vida, ela sempre respondia "Fui aquilo de tão bom, mas quem é bom o mundo se aproveita também, depois eles te jogam fora. Hoje eu sou uma pessoa sem expectativas, sem sonhos, sem medos, cheia de decepções e ilusões. E agora, o mundo não tenta roubar nada de mim, só se surpreende". E talvez, ninguém soubesse mais sobre ela, até porque ela não contava mais sobre sua vida. Costumava dizer que já havia vivido tudo o que tinha para viver, agora ela só vagava por aí, como alguém que espera a morte chegar. E quando alguém tentava lhe convencer a voltar pra casa e parar de viver naquelas condições, ela negava, dizia que estava bem assim porque agora ela é livre, tão livre e ao mesmo tempo tão sozinha. Enfim, ninguém sabia o nome dela, ela também nunca disse, costumava dizer para chamarem ela de qualquer coisa, qualquer nome. Sendo assim, ela devia ter uns mil nomes diferentes, e não se importava com isso. Gostava de Cyndi Lauper e de rock, mas nos seus momentos de bebedeiras ela dançava qualquer coisa e dizia quase sempre que música é uma das melhores coisas nessa vida, qualquer barulho, desde que agrade a gente, é bom. Ela invadia as festas e dava um show, não sabia dançar mas se divertia. Apesar da fama de menina aloprada das ruas, algumas pessoas gostavam dela. Se misturava, mas sempre se guardava, dizia que o corpo é um bem sagrado nosso e se você não cuida do seu corpo, bem, você não cuida da sua alma. Enfim, e depois de um tempo eu nunca mais a vi, mas sinto que ela ainda vive por aí, perdida. Ela era linda, mas sua aparência era horrível, ela estava acabada mas ainda se conseguia ver a sua verdadeira beleza. E lá vai a menina aloprada, vai andando por aí dando conselhos para os outros e surpreendendo todo mundo. Do que eu sempre vou me lembrar, é dela dizendo: "E não há nada que vocês possam fazer contra mim, agora somos só eu e a minha fé"...




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